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03/12/2010

ENSAIO: A Ciência e percursos comuns

A semana passada foi dedicada à Ciência e Tecnologia, razão pela qual se desenvolveram várias iniciativas de divulgação científica um pouco por todo o país: documentários televisivos, exposições nos Centros Ciência Viva com preços de entrada reduzidos, teatros protagonizados por investigadores, workshops, entre outros. Gostei de ver - gosto sempre de ver - a comunidade científica a mobilizar-se neste tipo de eventos, mas dá-me um prazer gratificante ainda maior constatar a adesão do público a este tipo de actividades. Todas as gerações estiveram presentes, dos mais idosos aos mais novitos. Os avós, os pais, ou os monitores explicavam às crianças, ainda demasiado pequeninas, um ou outro conceito mais complicado nas exposições, enquanto os infantes escutavam atentamente até entenderem a mensagem, momento após o qual esboçavam um sorriso. Deu para ver o fascínio estampado na cara dos mais novos quando se falava de ciência.
Hoje os temas que atraem os mais novos, talvez por serem os mais falados, são a genética, a astronomia (estudo de outras galáxias) e as nanopartículas. Há quinze ou vinte anos atrás os temas de conversa passavam pela anatomia/fisiologia (influências da série televisiva e colecção de fascículos "Era uma vez... o corpo humano"), a biologia marinha, a astronomia (estudo da nossa galáxia), e... os Dinossauros - estes animais que habitaram a Terra há milhões de anos, e que fizeram muitos jovens sonhar com uma carreira paleontológica. Tínhamos vários cientistas como modelos, que nos acompanhavam pela televisão explicando-nos os mais variados fenómenos ou elucidando-nos acerca dos últimos avanços científicos. No panorama internacional lembro-me do Carl Sagan e do Jacques Costeau, a nível nacional tínhamos o professor Galopim de Carvalho (paleontologia e geologia), o professor Carlos Fiolhais (com o "Livro Física Divertida" da década de '90), ou a professora Clara Pinto Correia (em programas de divulgação sobre clonagem ou sobre técnicas de reprodução medicamente assistida).
O último exemplo traz-me ainda mais recordações. Lembro-me dos textos divulgativos da autoria da professora Clara que líamos no Clube de Ciências, no ensino secundário; dos prefácios nos livros de ciências naturais; dos livros de divulgação científica; dos seus romances, sempre com um toque de ciência. Lembro-me que gostaria de a conhecer pessoalmente. E conheci, no curso de Biologia na Universidade Lusófona. Para além das aulas, frequentava os workshops que a professora Clara leccionava. Certa vez entrevistei-a para o boletim informativo do Núcleo de Alunos de Biologia. Alguns anos depois acabou por ser minha orientadora na tese de mestrado.
Hoje, por acaso, descobri um blog de alguém que também conheceu a professora Clara, que também a entrevistou, e que também acabou por seguir o curso de biologia. Há vidas que inspiram outras vidas. Deixo o link para visita: http://doaltodasminhassabrinas.blogspot.com/2010/12/entrevista-clara-pinto-correia.html 

05/11/2010

ENSAIO: O tempo na Evolução

No dia 19 de Outubro de 2010, a Doutora Clara Pinto Correia escreveu um texto neste blog com respostas a um conjunto de questões relacionadas com a Biologia. Com a sua reconhecida capacidade de síntese, respondeu de um modo claro e directo às perguntas colocadas. Contudo, alguns dos assuntos são complexos pelo que necessitam de maior desenvolvimento, principalmente no que concerne às questões 6 e 7 referentes à evolução, sendo o que proponho fazer hoje.
Vejamos, antes de mais, como se processa o mecanismo evolutivo por selecção natural. Uma determinada população de uma dada espécie é constituída por vários elementos, todos eles com diferenças entre si (e. g. diferentes tamanhos, colorações, resistências imunológicas) – o que se denomina de variabilidade intraespecífica. Ao longo do tempo, os indivíduos reproduzir-se-ão, deixando descendência com características semelhantes às dos progenitores. O isolamento populacional através de uma barreira geográfica, cataclismos naturais, ou escassez de recursos alteram o estilo de vida da população dessa espécie, pelo que terá de haver uma luta pela sobrevivência. Como os indivíduos são diferentes entre si, terão características mais ou menos vantajosas. Assim, os que têm as características mais vantajosas vivem mais tempo, reproduzem-se mais e deixam mais descendentes com essas características; os que têm características menos vantajosas ou não sobrevivem, ou sobrevivendo deixam menos descendentes. Assim, ao longo do tempo, essa população será maioritariamente constituída por indivíduos de características vantajosas e com poucos ou nenhuns elementos de características menos vantajosas. Temos, deste modo, a formação de novas espécies, que poderão coexistir no mesmo espaço e no mesmo período temporal.
De salientar que muitas espécies são semelhantes no aspecto exterior, mas diferentes a nível de anatomia interna ou mesmo fisiológica, sendo caracterizadas como espécies diferentes.
Respondendo à questão 6, de facto o Homem também evolui biologicamente, como qualquer outro ser vivo (animal ou planta). Apesar disso, não se encontra neste momento a dividir-se em novas espécies, tal como a professora Clara afirma.
Na questão 7 é necessário clarificar o que se entende como futuro. Atendendo a uma escala de tempo geológico, num futuro a curto prazo de dezenas, centenas ou alguns milhares de anos, como a professora Clara afirma, não haverá grandes diferenças a nível de espécie. Contudo, se pudéssemos viajar no tempo para um futuro de largos milhares ou milhões de anos, aí sim, seria muito provável encontrar a nossa espécie a habitar com novas espécies de hominídeos, assim como novas espécies de outros animais e plantas.

11/10/2010

ENSAIO: Biodiversidade - Moluscos

2010, é o Ano Internacional da Biodiversidade, e tem servido não só para informar os cidadãos da necessidade de preservar o mundo vivo, como também têm sido debatidas as razões pelas quais o devemos fazer.
Olhemos para o caso dos Moluscos. O filo Mollusca é o segundo maior em número e variedade de espécies (precedido apenas pelo filo Arthropoda, onde se encontram crustáceos, insectos, aracnídeos, entre outros). Ao longo do processo evolutivo de milhões de anos tiveram a oportunidade de colonizar diversos locais. Os moluscos são animais de corpo mole e sem esqueleto que podem ser encontrados em terra ou na água – habitam em águas doces, salobras ou salgadas -, a grandes profundidades ou a elevadas altitudes, em pântanos, lagos, grutas, montanhas ou florestas. Podem apresentar uma concha externa, interna (revestida pelo manto), ou podem mesmo não ter concha. Exemplos de moluscos conhecidos são os quitons (poliplacóforos), lesmas-do-mar, conus, olivas, caracóis (gastrópodes), amêijoas, mexilhões, ostras (bivalves), lulas, polvos, chocos (cefalópodes).
Se os seres-humanos preservarem os animais deste filo, e se os consumirem de um modo sustentável, poderão continuar a usufruir deles no futuro. Estes animais têm tido ao longo da História uma importância relevante a vários níveis: a nível cultural os moluscos e as conchas podem ser encontrados na mitologia, arquitectura, e pintura; as pérolas, que resultam de um mecanismo de defesa natural dos bivalves, possuem um reconhecido prestígio a nível estético; as conchas podem ser utilizadas na construção de peças artísticas melhorando a economia de zonas costeiras; diferentes moluscos são usados na alimentação de vários povos; derivados destes animais podem ser usados na cosmética e até na biomedicina.
Eis várias razões por que é imprescindível a preservação dos moluscos, sendo que o mesmo poderia ser dito de outros grupos de animais e plantas. Torna-se assim importante proteger a biodiversidade que nos rodeia.

29/09/2010

ENSAIO: Animais fazem fotossíntese? - Parte I

Imaginem que se deparavam num exame com a seguinte questão: “Os animais fazem fotossíntese?”. A resposta parece simples. Ou será que não?

Na escola somos ensinados que a fotossíntese é um mecanismo exclusivo de plantas, algas e algumas bactérias; e, além disso, uma característica que separa os animais dos outros seres é o facto de não possuírem cloroplastos e não realizarem fotossíntese. Já agora, para compreender convenientemente o texto que se segue, convém relembrar que a fotossíntese é o meio pelo qual alguns seres-vivos obtêm o seu próprio alimento (sendo, por isso, designados de seres autotróficos), através da assimilação de dióxido de carbono e água, levando à produção de oxigénio e glicose. Para este processo, é essencial a existência de uns organelos que se encontram nas células vegetais, designados de cloroplastos, e que possuem um pigmento que é a clorofila, responsável pela coloração verde em plantas.

Como é habitual na natureza que nos rodeia, para toda a regra existe uma excepção, facto para o qual os cientistas estão preparados. O mundo aquático, em particular, é como que um baú repleto de brilhantes tesouros, os quais só conseguimos verdadeiramente admirar à medida que lhe prestamos atenção. Foi isto que aconteceu quando biólogos marinhos começaram a explorar o mar e a identificar a biodiversidade dos lagos, rios, mares e oceanos, de onde resultaram milhões de identificações de espécies, desde microalgas, passando por uma panóplia de microorganismos, crustáceos e outros artrópodes, moluscos, equinodermes, peixes, até aos mamíferos marinhos. Após a identificação torna-se necessário um estudo detalhado a vários níveis: anatómico, fisiológico, genético, ecológico, etc. Foi num destes estudos, que os cientistas voltaram a olhar com mais atenção para um grupo de moluscos, que nunca mais foi visto da mesma maneira. As lesmas-do-mar são pequenos moluscos, geralmente muito coloridos, e que têm sido alvo de vários estudos. Hoje pretendo abordar o estranho caso da lesma-do-mar fotossintética.

ENSAIO: Animais fazem fotossíntese? - Parte II

Ao olharem atentamente para uma lesma-do-mar verde, os cientistas, a certa altura, ter-se-ão questionado se elas poderiam realizar fotossíntese. Após alguns estudos, a hipótese foi validada, o que só trouxe ainda mais questões. Hoje sabe-se que estas lesmas-do-mar, que nascem sem cloroplastos, alimentam-se de algas, e que ao longo do sistema digestivo dá-se uma separação dos vários componentes do alimento, sendo que os cloroplastos são incorporados no tecido destes gastrópodes – daí a coloração verde. Ainda mais fantástico é que, deste modo, algumas destas espécies conseguem obter a energia necessária aguentando até 9 meses sem se alimentarem, através do processo fotossintético. Para isso, só precisam de luz, daí a designação “lesmas-do-mar movidas a energia solar” (solar-powered seaslugs). Não se trata de uma simbiose, mas de um roubo da maquinaria celular, daí chamar-se ao processo de cleptoplastia.

Uma equipa de cientistas portugueses encontra-se a estudar a espécie Elysia tímida, de modo a compreender até que ponto este mecanismo é eficiente. A resposta à questão foi, no mínimo, surpreendente: A eficiência da fotossíntese é superior no animal em estudo do que nas próprias algas que servem de alimento – de acordo com o estudo publicado no Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, pelos investigadores Bruno Jesus, Patrícia Ventura e Gonçalo Calado.

Estes moluscos conseguem realizar fotossíntese como as algas, mas, sendo animais, conseguem deslocar-se para locais com maior luminosidade, e quando esta se encontra em excesso podem ir novamente para locais mais escuros, ou, mover os parápodes (prolongamento da pele) para regular a quantidade de luz e diminuir o processo de fotoinibição, factor limitante nas algas. “É como usar o melhor dos dois mundos”, explica o Dr. Jesus.

Respondendo à questão com que iniciei a primeira parte do texto, sim, há animais que podem realizar a fotossíntese, como é o caso de algumas lesmas-do-mar que utilizam os cloroplastos das algas das quais se alimentam, através do processo de cleptoplastia.

Estudo realizado por investigadores do Instituto Português de Malacologia (IPM) (http://www.ipmalac.org/) e Instituto de Oceanografia (http://co.fc.ul.pt/)

Fontes:
Artigo científico: aqui
Notícia no site da BBC - BBC - Earth

13/01/2010

ENSAIO: A Importância da História da Ciência

A História é a memória dos saberes humanos e, especificamente, das Ciências criadas pelo Homem. Dentro da literatura humana existe uma ampla biblioteca de exposição científica. O Homem, desde sempre curioso em saber mais sobre o seu ambiente, tem criado métodos de análise e conhecimento dos muitos fenómenos que atraem o seu interesse. Assim se foram desenvolvendo as Ciências que desde há séculos descrevem a Natureza e reescrevem as suas conclusões. O objecto da observação, os métodos e até a sensibilidade do cientista, distanciam-nas entre si e permitem, apesar da natural continuidade entre os seus saberes, uma razoável delimitação de fronteiras, ou seja, a especialização. Mas aproximam-nas a investigação contínua, a crítica dos trabalhos e a pretensão de verdade das conclusões. A importância de uma disciplina como a História parece ser evidente. A História é a narração do passado humano apoiada na leitura crítica de variados documentos. É um repositório de factos pretéritos acerca de todas as sociedades humanas conhecidas, a todo o momento consultável e a todo o momento aumentado. É, pois, pelo trabalho dos seus escritores e “cultivadores” que se conserva, se conhece, se relembra e se critica a Memória. Já aqui se pressente a sua relação com outras ciências, como a Biologia ou a Medicina. A História é a organização da memória dos saberes científicos, para que se saiba sempre o que se acha adquirido e quanto espaço para investigação existe. Explicando melhor: todas as Ciências têm os seus métodos e fins, adquiridos ao longo de muitos séculos de investigação. Observações, tentativas, falhas, estudo, soluções têm feito parte da descoberta de verdades mais ou menos permanentes. Assim, a existência de qualquer ciência pressupõe factos anteriores. Sendo os factos pensados e executados pelo Ser Humano, a existência das Ciências também pressupõe memória. Se a memória é a “conservação de experiência anterior que se manifesta por hábitos ou por lembranças”[1], é a História, com as suas ciências auxiliares, que tem tratado de guardar e sistematizar para consulta e crítica os factos que conduziram ao que são hoje as nossas Ciências. É, por isso, um suporte privilegiado de memória, pois que, na sua acepção geral, a abrange toda. A História nunca poderá ser uma ciência pouco útil ou pouco importante, já que em geral está relacionada com as ideias de identidade, de liberdade e de autonomia. Relativamente à Ciência em particular, afirma o Prof. A. Tavares de Sousa: “A ciência não pode prescindir, para se pensar a si mesma, do conhecimento do seu passado próximo ou remoto, que é o seu modo histórico de formação, a sua própria ontogenia.”[2] Noutro passo, diz o mesmo autor: “O desprezo pela História da Ciência não constitui título de engrandecimento nem sinal de capacidade progressiva. Muito ao contrário. A Ciência de hoje será a História de amanhã.”[3]


Notas:
[1] “Dicionário da Língua Portuguesa”, 5ªedição, Porto, Porto Editora, s.d., p.933, s.v. “Memória”.
[2] A. Tavares de Sousa, “Curso de História da Medicina – Das Origens ao Século XVI”, 2ªedição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p.3.
[3] Idem, ibidem, p.9.

16/11/2009

ENSAIO: A Ciência dos Bem-Nascidos

O inglês Francis Galton cunhou a palavra "eugenia" a partir do grego "eugenés", ou seja, "bem nascido". Portanto, esticando um bocado a corda, foi fácil declarar que a Eugenia, oficialmente criada na Grã-Bretanha em 1883, já era uma ideia corrente na Antiguidade Clássica. Sempre era mais bonita. Os Gregos já tinham por prática envidar esforços no sentido de ir diminuindo os números dos menos equipados para o funcionamento da sociedade. Os primeiros eugenistas britânicos gostavam de repetir esta memória, evitando até o esclarecimento de que por menor capacidade de integração na sociedade se aplicava fosse por tolice ou por aleijão. Dizer isto causava menos desconforto, e era francamente menos chocante, do que a noção subjacente à eugenia de que, já que se nem todos os indivíduos são dotados das melhores qualidades físicas e mentais, nem todos podem ter o direito a reproduzir-se.
A ideia pode ter conhecido variações mais ou menos interessantes, mas a eugenia tal como a conhecemos hoje ganhou os seus primeiros contornos no início do século XIX, nomeadamente com o trabalho de Thomas Malthus. Os seus estudos sobre as “leis” da inevitabilidade biológica da sobrepopulação assombraram sobretudo a alta finança europeia, que ouviu o estatístico francês com muita atenção. Malthus fez notar que não era de forma nenhuma impossível que, com cruzamentos selectivos “pode ocorrer entre os homens, por métodos idênticos aos praticados nos animais, um certo grau de melhoramento”. Mas acrescentou, muito claramente, “como a raça humana não pode ser atingida por esta via, a menos que condenemos todos os maus espécimes ao celibato, não é provável que se generalize a atenção ao cruzamento selectivo”.
Claro que, ao fazer a afirmação pela negativa, Malthus estava, na realidade, a estimular os seus colegas a atacarem-na pela positiva. E não foram poucos os que lhe responderam ao repto.
Por exemplo, em 1850 o cientista francês Prosper Lucas escreveu um dos tratados sobre hereditariedade mais lidos e circulados do período. O tratado continha as árvores genealógicas das características morais e mentais de criminosos condenados, com um pedido veemente endereçado ao governo francês para que impedisse a continuação da propagação destas linhagens, para que, desta forma, a criminalidade fosse desaparecendo de geração para geração e a sociedade francesa melhorasse substancialmente.
Depois de Mendel e Malthus, seria Darwin o cientista a contribuir de seguida para o estabelecimento da eugenia. O pai da eugenia, o cientista, viajante, geógrafo e estatístico Francis Galton, começou a publicar ensaios sobre a hereditariedade humana e as políticas sociais em 1865, pouco depois de ter lido A Origem das Espécies. A evolução deu a Galton as ideias que faltavam para formar o núcleo duro da eugenia: o significado das variações hereditárias nos cruzamentos domésticos, a sobrevivência do mais apto na luta pela vida, a analogia entre os cruzamentos domésticos e a selecção natural. Estas ideias foram desenvolvidas substancialmente no livro Hereditary Genius, de 1869, que é considerado, ainda hoje, como o texto fundador da eugenia.

Embora muitos cientistas europeus de grande nível, como o próprio Darwin, se sentissem atraídos pelo conceito de controlar a hereditariedade humana no sentido de melhorar as suas populações, a verdade é que, até ao fim do século XIX, a repugnância moral e política pela interferência na reprodução humana continuaram a impedir que os argumentos eugénicos se transformassem em acções. Basicamente, os seguidores de Galton defendiam que, à medida que evoluía, a sociedade se tornava cada vez mais capaz de proteger os seus membros mais frágeis e menos capazes de adaptação –– mas essa mesma sociedade poderia melhorar muito mais rapidamente se, ao mesmo tempo, se tomassem medidas expeditivas para que esses mesmos desadaptados não deixassem descendência, por forma a irem sendo eliminados geneticamente. No entanto, de início nenhum país europeu quis enveredar por este tipo de políticas.
As atitudes sociais só começaram a mudar no final do século XIX, quando as consequências mais perniciosas da revolução industrial deram lugar a uma atmosfera generalizada de pessimismo que fez com que, em vez de evolução, se passasse a falar em degeneração. O crime, os vícios, a entrada das mulheres para o mercado de trabalho, a imigração, a vida em ambientes maioritariamente urbanos, eram geralmente acusados da sua ocorrência. A crença generalizada de que as "doenças dos pobres", como a tuberculose, a síflis, o alcoolismo e os problemas mentais, eram hereditárias, tornava a perspectiva ainda mais alarmante e começou a levar a apelos para que não se perpetuasse a cadeia de "multiplicação rápida dos inadaptados". Galton insistia que a sociedade estava a sustentar mais do que podia e ou começava a aplicar sistematicamente a selecção dos seus melhores espécimes para reprodução em cada geração, fazendo em poucas gerações o que a selecção natural faz em milénios, ou acabaria completamente degenerada.
Na última década do século XIX, o biólogo austríaco August Weissman anuncia, pela primeira vez, que o material genético contido do núcleo é "imortal" (no sentido em que se transmite de geração em geração sem nunca se alterar, ao longo de toda uma linhagem), e que é ele que assegura a transmissão dos caracteres hereditários, em total independência dos restantes acontecimentos celulares. Isto, obviamente, é música para os ouvidos de quem defende teorias de engenharia social segundo as quais os "inadaptados" não devem reproduzir-se: se a mensagem hereditária é imortal e não há nada que possa alterá-la, então, logicamente, um inadaptado só poderá dar origem a mais inadaptados.
É sempre difícil dizermos se cientistas como Francis Galton são neutros em relação ao material científico que produzem e é a sociedade que se apropria dos seus dados para legitimar políticas moralmente complexas, ou se os próprios cientistas já tinham, à partida, essas mesmas ideias, e apenas procuraram dar-lhes uma qualquer forma de validação científica. O que é certo é que, depois de Weissman e do aproveitamento que Galton fez da sua teoria da imortalidade da linhagem germinal, começou a ser vulgar encontrarmos nas publicações científicas passagens como esta, de Karl Pearson, o primeiro Professor de Eugenia da London University: "Nenhum conjunto de espécimes degenerado e pobre de espírito poderá alguma vez dar a origem a populações saudáveis e produtivas pelos efeitos acumulados de boa educação, boa legislação, e boas condições sanitárias. Gastámos o nosso dinheiro no ambiente onde afinal é a hereditariedade quem ganha". Embora os eugenistas tenham sido sempre uma minoria, e tenham encontrado resistência sobretudo nos países em que a tradição dos sistemas nacionais de saúde já se encontrava bem desenvolvida e enraizada, despertavam suficiente curiosidade e eram suficientemente sedutores para constituírem sociedades em numerosos países, e ocuparem novas cátedras em numerosas universidades. Em 1930, o eugenista inglês Wicksteed Armstrong não hesitou em escrever no seu livro The Survival of the Unfittest: "Para diminuir a fertilidade perigosa dos inadaptados há três métodos: a câmara letal, a segregação e a esterilização".
É preciso ver que nem todas as propostas dos eugenistas chegavam a estes extremas, e nem todas vinham da extrema-direita ou se destinavam a purificações raciais de cariz proto-nazi. Na Dinamarca, entre 1930 e 1949, esterilizaram-se mais de 8.500 pessoas na tentativa de erradicar anormalidades sexuais e físicas, ao abrigo de uma lei de 1929 que, nas palavras do médico dinamarquês Tage Kemp, visava permitir à sociedade "tornar as condições de vida toleráveis para todos". Na Suécia, onde o Estado criou em 1921 o Instituto para a Biologia da Raça em associação com a Universidade de Upsala, pelo menos 15.000 doentes mentais foram esterilizados por razões de eugenia ao abrigo de uma lei aprovada em 1934, destinada a "proteger os indivíduos do sofrimento individual causado pela hereditariedade".
Mas o país de políticas eugénicas mais activas antes de 1930 foi de longe os Estados Unidos. Em 1920, 24 estados já tinham aprovado leis de esterilização, aplicadas sobretudo aos pobres (e negros) trancados em instituições psiquiátricas. No total, cerca de 70.000 pessoas foram esterilizadas nos EUA entre 1909 e 1930.
É verdade que estas políticas caíram totalmente em desuso no Ocidente depois do pesadelo Nazi –– mas quantos não se sentem tentados a aplicados, e quantos não voltam a levantar a voz em defesa da sua aplicação?

05/10/2009

ENSAIO: A tentação da miniatura- Parte I

A hipótese da boneca russa: a Revolução Científica e o primeiro conceito de genética


No domínio das Ciências Naturais, a Revolução Científica do século XVII foi profundamente marcada pela entrada em cena do microscópio como instrumento de análise do mundo vivo. Depois de uns primeiros cinquenta anos de estudos pouco gratificantes, marcados por muito poucas publicações referentes a observações extremamente limitadas, as lentes e o entendimento do seu uso evoluíram o suficiente para permitirem uma subsequente explosão de publicações com observações francamente reveladoras, executadas por naturalistas como o inglês Robert Hooke, o italiano Marcello Malpighi, ou os holandeses Jan Swammerdam e Antoni van Leeuwenhoek, entre outros. Este conjunto de observações, além de ter surtido um efeito de grande impacto religioso junto da comunidade letrada do período, deixou claro e inquestionável o que de início não passava de uma hipótese de trabalho sedutora: abaixo do limite de resolução do olho humano, existia, de facto, todo um mundo diminuto que estava tão vivo como o nosso, e como o nosso tão perfeitamente organizado, senão mais organizado ainda. Esta certeza, radicalmente nova, foi a alavanca que permitiu aos naturalistas contemporâneos de Descartes libertarem a reprodução do seu venerando espartilho aristotélico.

De facto, até este período, a explicação preferida para o fenómeno da reprodução não evoluíra muito desde as propostas de Aristóteles no século III A c: dentro do útero feminino, existiria um coágulo de sangue inerte e amorfo, sem qualquer capacidade de organização ou animação internas, mas destinado a fornecer a matéria-prima para a escultura da progenia quando fosse acordado, exactamente como no beijo que o príncipe dá à Bela Adormecida, pela chegada do sémen ao útero depois da cópula. Aristóteles chegara ao ponto de equiparar o sémen à alma, uma vez que nem havia necessidade de contacto físico entre o coágulo materno e a contribuição paterna para desencadear a reprodução embrionária: seria antes um espírito emanado do sémen, a essência que desde então passou a ser descrita como a aura seminal, que animava o coágulo de vida, começava a modelá-lo para vir a formar um feto, e lhe conferia as características da espécie a que pertencia.

A este modelo vitalista e baseado nas forças invisíveis que o espírito da Revolução Científica combatia com a contraposição de modelos físicos e matemáticos compreensíveis e bem estabelecidos, em meados do século XVII o padre cartesiano francês Nicolas Malebranche contrapropõe, logo no início do seu tratado em seis volumes A la Recherche de la Vérité, na secção dedicada à visão e tomando como base de argumentação as recentes descobertas microscópicas, a teoria da Preformação: durante os primeiros seis dias da Criação, Deus, de cada vez que criou o primeiro organismo de cada espécie animal ou vegetal, encaixou dentro dos seus órgãos genitais, todos encaixados uns dentro dos outros e em tamanhos mais e mais diminutos, exactamente como numa boneca russa, todos os organismos das gerações subsequentes que haviam de vir a nascer e viver até à chamada conflagração final, que assinalaria o fim do mundo. Desta forma, toda a vida destinada a existir à superfície da Terra tinha sido criada toda de uma vez, num acto único, já com as suas características perfeitamente definidas, e limitava-se a aguardar pacientemente o sinal de um qualquer despertador também ele pré-programado por Deus para se desenroscar, começar a crescer, ganhar as proporções de um feto típico daquela espécie, e por fim nascer. Ao nascer, esse animal ou planta tinha os seus orgãos sexuais próprios, e dentro deles estavam guardados os organismos da geração seguinte, já com os que se lhes seguiriam enroscados lá dentro, e assim por diante.

Este modelo é extremamente sedutor para o espírito da Revolução Científica devido ao seu carácter estritamente mecânico, sem intervenções de espíritos invisíveis nem fenómenos inexplicáveis; pela possibilidade permitida de explicar a progressão da vida em termos de sequências numéricas e fracções, absolutamente na linha do furor mathematicus ou quantumphenia que varria a Europa; e mais ainda pela sua conformidade com o Deus-relojoeiro de Descartes, que cria o mundo como um mecanismo de relógio perfeito e sem falhas, dá corda ao relógio, desencadeia todos os acontecimentos terrestres, e, a partir daí, nunca mais volta a interferir com a Sua criação. Além dito, a preformação fornecia explicações científicas para mistérios religiosos, e podia até funcionar como um argumento de legitimidade social. Se todos os seres humanos tinham estado encaixados dentro de um ovo primordial, e portanto provinham todos da mesma mãe, tornava-se por fim cientificamente incontornável que todos os homens eram mesmo irmãos, conforme Jesus afirmara. Por outro lado, se todas as gerações tinham sido pre-programadas por Deus, não havia razão para ninguém tentar alterar o seu destino: por vontade divina, os reis descendiam de linhagens de reis, tal como os servos descendiam de linhagens de servos.

Um outro factor explicativo que, no seu tempo, torna a preformação tão sedutora , é a resposta ao problema da continuidade específica, até então sistematicamente sem resposta: como é que cada novo embrião de cada espécie sabe, desde o início, a que espécie é que pertence? Por que é que os coelhos geram sempre coelhos e as avestruzes geram sempre avestruzes? Por que é que nunca nascem crocodilos dos ovos dos pintos, nem rinocerontes da barriga das éguas? Se fora Deus a organizar todo o encaixe, devidamente organizado por espécie, a questão deixava logicamente de se por.

ENSAIO: A tentação da miniatura- Parte II

A hipótese da boneca russa: a Revolução Científica e o primeiro conceito de genética
Temos ainda que ter em conta um outro factor que, na época, tornou a pre-formação perfeitamente aceitável como modelo explicativo para a reprodução: a duração da vida na Terra, na altura consensualmente considerado como de não mais de seis mil anos. Num período tão curto, e sem a noção (ainda a dois séculos de distância, quando se chegasse ao postulado da teoria celular) de que existe um limite inferior de tamanho para a organização dos seres vivos, é concebível imaginar Deus a encaixar uns dentro dos outros organismos cada vez mais pequenos. Se os naturalistas da época tivessem que lidar com o tempo geológico profundo que conhecemos hoje (e que, uma vez mais, só viria a tornar-se consensual em finais do século XIX), certamente teriam mais dificuldade em acomodar o conceito de um encaixe ilimitado. Por outro lado, se a microscopia já tivesse evoluído na época ao ponto de permitir a compreensão de que todos os seres vivos são constituídos por unidades básicas chamadas células, e que cada célula, para poder funcionar, precisa de grandes quantidades de água, de uma qualquer forma de empacotamento da macromolécula do DNA, e de vários organitos, já nunca poderiam dizer, como tão bem sintetizou Charles Bonnet, “A Natureza pode trabalhar em tamanhos tão pequenos quanto lhe aprouver”, e a hipótese do organismo completamente constituído incluído numa escala deslizante para dimensões infinitamente pequenas teria que ser excluída. Foi uma conjugação extremamente interessante de conhecimentos e falta dos mesmos, combinada com as idiossincrasias do período, que tornou a preformação possível.
Quando Malebranche postulou este conceito, o único veiculo conhecido que poderia permitir este encaixe era o ovo. Há milénios que se observava a eclosão de seres vivos de dentro de ovos, fossem de peixes, de répteis, de anfíbios ou de aves. Nos microscópios de Redi, de Swammerdam, ou de Hooke, o ovo do insecto de onde eclodem as larvas também já se tornara conhecido. Já no fim da vida, no seu livro pioneiro Exercícios de Geração Animal, o médico inglês William Harvey, tornado famoso pela descoberta do mecanismo da circulação do sangue aos 44 anos, depois de vários anos passados a observar microscopicamente o desenvolvimento de embriões de pinto e o útero de gazelas grávidas da tapada do Rei Carlos V, postula pela primeira vez com todas as letras Ex Ovo Omnia , “do ovo, tudo”, ou seja, “tudo quanto é vivo provém do ovo. O frontispício da primeira edição, imortalizado em inúmeras reproduções, mostra-nos Zeus a abrir um ovo em cuja parte superior se lê o hoje lendário Ex Ovo Omnia, e de onde estão a sair todas as criaturas que existem no planeta. Foi a primeira afirmação taxativa de que também os mamíferos deviam provir de um ovo, se bem que interno, microscópico, e consequentemente difícil de detectar.
As dificultardes inerentes a esta pesquisa, no entanto, não atrasaram a descoberta por muitos mais anos: em breve o microscopista holandês Reignier de Graaf estava a publicar o seu tratado sobre as partes reprodutivas das mulheres, com observações feitas em cadáveres femininos e em ovelhas, onde o “ovo do mamífero” aparece claramente desenhado nos ovários de ambas as espécies, em vários tamanhos, que de Graaf explica corresponderem a diferentes fases de maturação. Claro que estes “ovos” não eram ainda os ovos propriamente ditos, mas antes as estruturas a que agora chamamos, precisamente, os “folículos Graafianos”: a estrutura de células protectoras, no córtex 0ovariano, que se sobrepõem em torno do ovo em várias camadas concêntricas – e são, consequentemente, muito mais fáceis de detectar e observar com um microscópio ainda muito simples. Encontrar o verdadeiro ovo do mamífero, micrométrico e completamente transparente, revelou-se uma tarefa tão espinhosa que só chegou à sua conclusão definitiva com a vivissecção das cadelas de Ernst van Baer, já na segunda metade do século XIX.
No século XVII, estando agora consensualmente estabelecido que todos os mamíferos provinham de ovos, os primeiros grandes preformacionistas assumiram-se todos, muito logicamente, como ovistas: na sua explicação do modelo reprodutivo, Deus encaixara dentro do primeiro ovo de cada fêmea todas as gerações de todos os organismos que haviam de vir. Alguns eram do século masculino e não participavam na perpetuação das linhagens: o seu papel era antes, através da aura seminal libertada pelo sémen depois da cópula, acordar a miniatura no ovo para que ela se desenroscasse e crescesse. Mas os do sexo feminino tinham ovários, dentro desses ovários estavam ovos, e dentro desses ovos estava preformada a geração seguinte, com a outra geração já preformada dentro dos seus ovos, nos seus ovários.

ENSAIO: A tentação da miniatura - Parte III

A hipótese da boneca russa: a Revolução Científica e o primeiro conceito de genética


O problema é que, estando-se em plena fase de euforia no respeitante á utilização do microscópio, era apenas uma questão de tempo até que alguém observasse uma gota de sémen debaixo das lentes. Isto aconteceu cerca de vinte anos depois do estabelecimento da preformação na sua versão ovista, muito provavelmente no âmbito das observações do microscopista holandês Antoni van Leeuwenhoek. Num desenho enviado para as Transactions of the Royal Academy of Science, Leeuwenhoek apresenta desenhos de vários “Vermes espermáticos” observados em diferentes gotas de sémen, incluindo sémen de galo, de lagarto, de boi, e de humano (que o autor explica ser o seu próprio, obtido “por vias absolutamente naturais”). Estes “animálculos”, aparentemente, estão presentes no sémen de todos os animais, podendo variar a configuração das cabeças mas mantendo sempre o mesmo aspecto vermiforme e as longas caudas, sempre em movimento.

A descoberta do espermatozóide levantou aos preformacionistas uma possibilidade aliciante: por que não mudar o género do portador das linhagens? Por que não considerar que Deus, ao criar o homem, encaixara toda a sua descendência no testículo de Adão, e não no ovário de Eva? Sendo à época a mulher ainda um ser humano considerado de papel secundário e subserviente, esta escolha de Deus parecia ainda mais correcta, e certamente melhor ponderada. Foi assim que apareceram os hoje chamados “espermistas”, que na época se referiam a si próprios como animalculistas: os que defendiam que era dentro da cabeça do “verme seminal” que Deus encaixara toda a progenia de todas as espécies, do princípio ao fim dos tempos. O ovo, neste caso, teria apenas o papel da terra fértil onde se implanta à semente, fornecendo à criatura miniatural que lá entrasse dentro as condições de nutrição e protecção que lhe permitiriam crescer até nascer.

Devido às suas características extremamente curiosas e divertidas, incluindo o seu movimento constante e o seu aspecto de pequeno ser vivo, o espermatozóides foram à época extremamente observados e largamente debatidos, partindo-se sempre do princípio de que constituíam verdadeiros animais. Assim, foram publicadas ilustrações de espermatozóides a dormir, espermatozóides a copular, espermatozóides a nascerem de ovos, sistemas circulatórios, bolbos cefálicos, e até o desenvolvimento do seu tubo digestivo com todos os pormenores.

Dentro deste contexto, não é de admirar que um colega dado a partidas tenha tentado enganar outro. O geógrafo francês François de Plantade, Dalenpatius na literatura, mandou a Leeuwenhoek um desenho das pequeninas criaturas humanas que garantia ter visto dentro do espermatozóide humano, já completamente vestidas, com barbas, chapéu e botas, afirmando que descobrira o fenómeno quando “um deles” nadara até ao cimo da gota e despira a pele que o envolvia., numa analogia nítida com os fenómenos da metamorfose dos insectos. Leeuwenhoek, claro, não se deixou enganar: mandou o desenho para a Royal Society como a brincadeira que era, aproveitando por criticar Dalenpatius pela sua descrição errónea do sistema circulatório do espermatozóide, e chamando a atenção para os erros em que podemos incorrer quando tiramos ilações demasiado apressadas das nossas observações.

No entanto, a semente da ideia mais apelativa de todas ficara plantada: alguma vez conseguiríamos observar o homenzinho minúsculo que estaria dentro do espermatozóide humano? O desenho mais famoso que reflecte este anseio é da autoria de outro microscopista holandês, Nicolas Hartsoeker, e figura das últimas páginas do seu monumental Traité de Dioptrique, sobre as possibilidades das lentes telescópicas e microscópicas. O famoso espermatozóide de Hartsoeker, ao contrário dosa de Dalenpatius, tem a cauda bem proporcionada em relação ao tamanho da cabeça. E, dentro da cabeça, um posição fetal, uma criança com a cabeça ainda muito grande aguarda a sua vez de ser chamada à existência. Ao contrário do que afirmam alguns estudiosos apressados, Hartsoeker nunca afirmou ter observado semelhante criatura: escreveu apenas, ao lado da figura, que era muito provável que, com melhores microscópicas, uma observação semelhante àquela se tornasse possível.

No entanto, passadas as primeiras décadas de euforia espermista, a teoria começou a caiu em desgraça, muito mais depressa que o ovismo. Nesta decadência acelerada, há vários factores que se conjugam.

Em primeiro lugar, os números desencadeados pelo espermismo são incompatíveis com a matemática do século XVII. Há milhares de espermatozóides em cada ejaculado, todos eles muito pequenos, e todos eles, supostamente, com as gerações quer nascerão e viverão até ao fim dos tempos encaixadas na cabeça. O tamanho destas criaturinhas torna-se rapidamente insuportavelmente pequeno, mesmo não se considerando um limite inferior de tamanho para a organização da vida. A certa altura, Hartsoeker decide fazer um cálculo interessante: que tamanho teriam os coelhos que estão agora vivos na Holanda quando estavam encaixados dentro do primeiro coelho que Deus criou? As suas contas, tendo em conta a pequenez do espermatozóide e a velocidade a que se reproduzem os coelhos, levaram-no a que hoje, em matemática da segunda metade do século XX, se chama um “número impossível” ou um “googol”: valores que expressam fracções de valores tão dispares como o tamanho do electrão comparado com o tamanho do universo. Isto, para o século XVII, era pensar o impensável. Atormentado, Hartsoeker escreveu uma frase lindíssima, digna de figurar em qualquer colectânea de citações sobre as aflições do investigador:

“J'aimerais bienm étudier la réporoduction, mais qu'est-ce que l'on peut faire d'une chose qui est envelopée de ténèbres si épaisses?”

Com estas palavras, desistiu de endossar o espermismo, deixou de acreditar na preformação, e nunca mais quis fazer observações microscópicas.

O segundo grande problema do espermismo era exactamente o da natureza animal que os seus progenitores tinham tomado como certa para o veiculo das gerações encaixadas. Eles próprios se referiam ao espermatozóide como “verme espermático”. O termo “espermatozóide” só foi cunhado por van Baer no século XIX, quando se conhecia consensualmente a identidade deste “bicho” como uma célula, e no entanto a associação ao parasita seminal persiste: “espermatozóide” significa qualquer coisa como “animal no sémen”. Agora, estaria a sociedade do primeiro tempo da microscopia pronta para admitir que provinha de um verme? Recordemos que, no século XIX, Charles Darwin provocou um estremecimento tremendo nos pilares da religião e da organização social do seu tempo ao ousar sugerir que o homem descende do macaco. Agora imaginemos, dois séculos antes, ter que admitir que o homem descende do verme. O mesmo verme que nos come depois de mortos, ainda por cima. “Oh que triste metamorfose”, escreveu um comentador da época. E a resistência à nossa origem vermífuga ficou largamente registada em panfletos, ensaios, discursos, cartas e sermões.

O terceiro factor foi provavelmente o mais devastador de todos, porque as suas implicações éticas e morais eram extremamente complexas para uma sociedade inquestionadamente cristã. Se existiam milhares de espermatozóides num ejaculado humano, mas se só um conseguia penetrar no avo (pois que só nascia uma criança de cada vez, no máximo duas), o que é que acontecia a todos os infelizes que não tinham para onde ir crescer e alimentar-se, todos eles já seres humanos em miniatura, todos eles, portanto, com alma? Por que razão havia Deus de criar milhares de seres humanos para depois os matar antes mesmo de nascerem? Não fora este mesmo Deus quem castigara Onan logo no início do Livro do Génesis pelo grave pecado do desperdício da semente? E, afinal, para cada geração, admitia a ocorrência de um verdadeiro massacre de inocentes? É evidente que os espermistas estiveram debaixo de fogo cerrado para resolverem este problema, porque todos eles se pronunciam a este respeito. Alguns, como Leeuwenhoek, tentam desdramatizar a comoção recordando-nos que a Natureza é pródiga em tudo o que faz, e também cria centenas de sementes nas maçãs para delas, se tanto, nascer uma nova macieira. O problema é que as maçãs não têm alma. Hartsoeker tenta descrever um cenário em que todos os animálculos que não conseguissem entrar no ovo perderiam os seus revestimentos externos, tornando-se extremamente leves e quase incorpóreos, flutuando depois no ar até conseguirem voltar a entrar para dentro do corpo de um animal da sua espécie. Se fosse um macho, desceriam até aos testículos, recuperariam os seus revestimentos, e tentariam uma nova oportunidade. Se fosse uma fêmea, voltavam a abandonar o organismo por qualquer orifício acessível. Nalguns casos podiam confundir-se sobre o género que os albergava, resultando daqui o nascimento de hermafroditas. Outros autores congeminam cenários semelhantes, uns mais criativos do que outros, mas todos vocacionados para tranquilizar as hostes com a garantia de que não há qualquer espécie de massacre de inocentes. Claro que nenhuma destas explicações foi particularmente bem sucedida, e o espermismo começou rapidamente a perder a adesão.