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03/01/2011

APELO DA SELVA: A Biologia da Crise


Este cartoon é uma referência à descoberta de um dipluro, insecto apterigota, numa gruta algarvia pela bióloga Sofia Reboleira. São animais muito pequenos, com cerca de 3 mm, desprovidos de olhos e asas, sendo, no plano na evolução, antepassados dos insectos que commumente conhecemos. Este agora descoberto - o Litocampa mendesi - está adaptado à vida nas grutas, onde forma uma comunidade relativamente reduzida.
Diário de Notícias, Ano 147º, nº 51768, p.31 (notícia) p.54 (cartoon) [3 de Janeiro de 2011].

21/08/2010

O APELO DA SELVA: Células sintéticas para quê?

O DESIGN INTELIGENTE?


AS primeiras notícias que recebemos diziam que um grupo de cientistas tinha conseguido fabricar um genoma que não existe na natureza e inseri-lo numa bactéria. No entanto, depois de bem escrutinizados os dados, vários cientistas insistem que não é claro se aquele genoma foi fabricado de raiz ou é apenas a cópia de outro genoma pré-existente –– ou seja, se o que se fez não passará de um mero acto de clonagem.

Para os que acreditam no genoma sintético criado em laboratório, o grande sonho é ver chegar o dia, ainda muito distante, em que poderemos sentar-nos e pensar que forma de vida precisamos de construir –– e depois desenhá-la e construí-la, como se faz com um carro ou uma ponte.

Embora os seus resultados ainda venham longe, a chamada biologia sintética já existe há umas boas décadas. Baseia-se na premissa de que, na maior parte dos casos, os organismos podem partir-se numa série de partes. A mais importante destas partes seria o gene, a sequência de informação no braço do cromossoma que contribui para a passagem de uma determinada mensagem para a célula. Os genes contêm instruções para se fazerem proteínas, e estas moléculas formam-se em diferentes tipos e tamanhos. É também dos genes que vem a informação sobre onde e quando estas proteínas devem ser utilizadas. As proteínas interagem umas com as outras, comandando várias das funções da célula.

Sabe-se, desde há muito tempo, que certos genes são essenciais: sem as proteínas que codificam, a célula não funciona. Mas muitos outros genes, em contrapartida, são opcionais: pelo menos no laboratório, o organismo dá-se muito bem sem eles.

É também importante sabermos que termos um ou dois genes “extra” de fabrico humano não costuma ser um problema. Já experimentámos inserir um gene novo, por uma grande variedade de razões, em organismos que vão da petúnia à cabra. Desde 1980, a insulina humana tem sido produzida em massa por células bacterianas geneticamente alteradas para o fazerem.

Até agora, já tínhamos conseguido remexer na Natureza para criar versões de genes e proteínas que não existem espontaneamente. A proteína fluorescente verde, por exemplo, é feita naturalmente pelas alforrecas. Os cientistas conseguiram alterar esse gene para que a proteína brilhe com mais força e possa ter outras cores. A fluorescência é já desde há muitas décadas um instrumento essencial em Biologia Celular e Molecular.

E, mais recentemente, apareceram os genomas construídos em laboratório. O primeiro que se fez, há oito anos, foi de um poliovirus –– ou seja, da estrutura de DNA mais simples do mundo vivo. Depois tornou-se possível fazer cópias sintéticas de genomas pré-existentes de bactérias. Agora, com estes novos resultados, parece que nos tornámos capazes de fabricar genomas bacterianos que nunca existiram na Natureza.

Mas as dificuldades neste campo continuam a ser muito grandes. Esta última publicação pode ter sido uma enorme proeza, mas é só um passinho de bebé em direcção à vida sintética, não é nenhum salto de gigante. A bactéria resultante quase não difere da bactéria que já existia. A única diferença é que o seu DNA tem algumas “marcas de água” (sequências especiais), que a identificam como tendo sido fabricada, em vez de resultar da evolução.

Um dos grandes problemas em criar vida no laboratório é que os sistemas biológicos evoluídos são complexos, e comportam-se muitas vezes de formas que ainda não conseguimos predizer. Podemos especificar a sequência de DNA que faz uma determinada proteína, mas nem sempre conseguimos prever com que é que vai parecer-se a proteína ou como irá interagir com as outras proteínas da célula. E, de qualquer maneira, na maior parte dos casos, os sistemas biológicos não são todos iguais uns aos outros: é verdade que nos tornámos bons a produzir DNA, já sabemos copiar genomas, alterá-los ligeiramente –– mas ainda estamos muito longe de conseguir construir um genoma a partir do nada.

Embora não consigamos expressar-nos fluentemente na linguagem genética da Natureza, não deixa de existir a possibilidade excitante de um dia escrevermos a nossa. Começámos pela engenharia de proteínas que não ocorrem normalmente no mundo vivo, e estamos a começar a construir moléculas que se parecem com o DNA na sua capacidade de acumular informação, mas que pode ser lido de forma diferente pela maquinaria da célula. Isto deve permitir-nos construir uma “segunda natureza”: um grupo de organismos que usam uma linguagem diferente, e que não podem interagir facilmente com as formas de vida que evoluíram na Natureza.

Note-se que o processo de inventar uma nova linguagem genética permite-nos perceber melhor aquela que já evoluiu. E isto já começou. As primeiras tentativas de criar DNA alternativo revelou rapidamente que cada “corrimão” da dupla hélix é muito mais fundamental para a forma como a célula trabalha do que tudo o que pudéssemos ter imaginado antes.

Claro que há muitas formas em que poderemos utilizar organismos feitos por design, umas boas e outras mais. Mas o que é realmente importante é que, ao tentarmos criar vida artificial, aprendemos cada vez mais sobre que a vida que foi evoluindo desde o princípio dos tempos.

O APELO DA SELVA: Morte aos feios!

A EUGENIA TEM RAÍZES PROFUNDAS
O inglês Francis Galton cunhou a palavra "eugenia" a partir do grego "eugenés", ou seja, "bem nascido". Portanto, esticando um bocado a corda, foi fácil declarar que a Eugenia, oficialmente criada na Grã-Bretanha em 1883, já era uma ideia corrente na Antiguidade Clássica. Sempre era mais bonita. Os Gregos já tinham por prática envidar esforços no sentido de ir diminuindo os números dos menos equipados para o funcionamento da sociedade. Os primeiros eugenistas britânicos gostavam de repetir esta memória, evitando até o esclarecimento de que por menor capacidade de integração na sociedade se aplicava fosse por tolice ou por aleijão. Dizer isto causava menos desconforto, e era francamente menos chocante, do que a noção subjacente à eugenia de que, já que se nem todos os indivíduos são dotados das melhores qualidades físicas e mentais, nem todos podem ter o direito a reproduzir-se.


A ideia pode ter conhecido variações mais ou menos interessantes, mas a eugenia tal como a conhecemos hoje ganhou os seus primeiros contornos no início do século XIX, nomeadamente com o trabalho de Thomas Malthus. Os seus estudos sobre as “leis” da inevitabilidade biológica da sobrepopulação assombraram sobretudo a alta finança europeia, que ouviu o estatístico inglês com muita atenção. Malthus fez notar que não era de forma nenhuma impossível que, com cruzamentos selectivos “pode ocorrer entre os homens, por métodos idênticos aos praticados nos animais, um certo grau de melhoramento”. Mas acrescentou, muito claramente, “como a raça humana não pode ser atingida por esta via, a menos que condenemos todos os maus espécimes ao celibato, não é provável que se generalize a atenção ao cruzamento selectivo”.

Claro que, ao fazer a afirmação pela negativa, Malthus estava, na realidade, a estimular os seus colegas a atacarem-na pela positiva. E não foram poucos os que lhe responderam ao repto.

Por exemplo, em 1850 o cientista francês Prosper Lucas escreveu um dos tratados sobre hereditariedade mais lidos e circulados do período. O tratado continha as árvores genealógicas das características morais e mentais de criminosos condenados, com um pedido veemente endereçado ao governo francês para que impedisse a continuação da propagação destas linhagens, para que, desta forma, a criminalidade fosse desaparecendo de geração para geração e a sociedade francesa melhorasse substancialmente.

Depois de Mendel e Malthus, seria Darwin o cientista a contribuir de seguida para o estabelecimento da eugenia. O pai da eugenia, o cientista, viajante, geógrafo e estatístico Francis Galton, começou a publicar ensaios sobre a hereditariedade humana e as políticas sociais em 1865, pouco depois de ter lido A Origem das Espécies. A evolução deu a Galton as ideias que faltavam para formar o núcleo duro da eugenia: o significado das variações hereditárias nos cruzamentos domésticos, a sobrevivência do mais apto na luta pela vida, a analogia entre os cruzamentos domésticos e a selecção natural. Estas ideias foram desenvolvidas substancialmente no livro Hereditary Genius, de 1869, que é considerado, ainda hoje, como o texto fundador da eugenia.



Embora muitos cientistas europeus de grande nível, como o próprio Darwin, se sentissem atraídos pelo conceito de controlar a hereditariedade humana no sentido de melhorar as suas populações, a verdade é que, até ao fim do século XIX, a repugnância moral e política pela interferência na reprodução humana continuaram a impedir que os argumentos eugénicos se transformassem em acções. Basicamente, os seguidores de Galton defendiam que, à medida que evoluía, a sociedade se tornava cada vez mais capaz de proteger os seus membros mais frágeis e menos capazes de adaptação –– mas essa mesma sociedade poderia melhorar muito mais rapidamente se, ao mesmo tempo, se tomassem medidas expeditivas para que esses mesmos desadaptados não deixassem descendência, por forma a irem sendo eliminados geneticamente. No entanto, de início nenhum país europeu quis enveredar por este tipo de políticas.

As atitudes sociais só começaram a mudar no final do século XIX, quando as consequências mais perniciosas da revolução industrial deram lugar a uma atmosfera generalizada de pessimismo que fez com que, em vez de evolução, se passasse a falar em degeneração. O crime, os vícios, a entrada das mulheres para o mercado de trabalho, a imigração, a vida em ambientes maioritariamente urbanos, eram geralmente acusados da sua ocorrência. A crença generalizada de que as "doenças dos pobres", como a tuberculose, a síflis, o alcoolismo e os problemas mentais, eram hereditárias, tornava a perspectiva ainda mais alarmante e começou a levar a apelos para que não se perpetuasse a cadeia de "multiplicação rápida dos inadaptados". Galton insistia que a sociedade estava a sustentar mais do que podia e ou começava a aplicar sistematicamente a selecção dos seus melhores espécimes para reprodução em cada geração, fazendo em poucas gerações o que a selecção natural faz em milénios, ou acabaria completamente degenerada.

Na última década do século XIX, o biólogo austríaco August Weissman anuncia, pela primeira vez, que o material genético contido do núcleo é "imortal" (no sentido em que se transmite de geração em geração sem nunca se alterar, ao longo de toda uma linhagem), e que é ele que assegura a transmissão dos caracteres hereditários, em total independência dos restantes acontecimentos celulares. Isto, obviamente, é música para os ouvidos de quem defende teorias de engenharia social segundo as quais os "inadaptados" não devem reproduzir-se: se a mensagem hereditária é imortal e não há nada que possa alterá-la, então, logicamente, um inadaptado só poderá dar origem a mais inadaptados.

É sempre difícil dizermos se cientistas como Francis Galton são neutros em relação ao material científico que produzem e é a sociedade que se apropria dos seus dados para legitimar políticas moralmente complexas, ou se os próprios cientistas já tinham, à partida, essas mesmas ideias, e apenas procuraram dar-lhes uma qualquer forma de validação científica. O que é certo é que, depois de Weissman e do aproveitamento que Galton fez da sua teoria da imortalidade da linhagem germinal, começou a ser vulgar encontrarmos nas publicações científicas passagens como esta, de Karl Pearson, o primeiro Professor de Eugenia da London University: "Nenhum conjunto de espécimes degenerado e pobre de espírito poderá alguma vez dar a origem a populações saudáveis e produtivas pelos efeitos acumulados de boa educação, boa legislação, e boas condições sanitárias. Gastámos o nosso dinheiro no ambiente onde afinal é a hereditariedade quem ganha". Embora os eugenistas tenham sido sempre uma minoria, e tenham encontrado resistência sobretudo nos países em que a tradição dos sistemas nacionais de saúde já se encontrava bem desenvolvida e enraizada, despertavam suficiente curiosidade e eram suficientemente sedutores para constituírem sociedades em numerosos países, e ocuparem novas cátedras em numerosas universidades. Em 1930, o eugenista inglês Wicksteed Armstrong não hesitou em escrever no seu livro The Survival of the Unfittest: "Para diminuir a fertilidade perigosa dos inadaptados há três métodos: a câmara letal, a segregação e a esterilização".

É preciso ver que nem todas as propostas dos eugenistas chegavam a estes extremas, e nem todas vinham da extrema-direita ou se destinavam a purificações raciais de cariz proto-nazi. Na Dinamarca, entre 1930 e 1949, esterilizaram-se mais de 8.500 pessoas na tentativa de erradicar anormalidades sexuais e físicas, ao abrigo de uma lei de 1929 que, nas palavras do médico dinamarquês Tage Kemp, visava permitir à sociedade "tornar as condições de vida toleráveis para todos". Na Suécia, onde o Estado criou em 1921 o Instituto para a Biologia da Raça em associação com a Universidade de Upsala, pelo menos 15.000 doentes mentais foram esterilizados por razões de eugenia ao abrigo de uma lei aprovada em 1934, destinada a "proteger os indivíduos do sofrimento individual causado pela hereditariedade".

Mas o país de políticas eugénicas mais activas antes de 1930 foi de longe os Estados Unidos. Em 1920, 24 estados já tinham aprovado leis de esterilização, aplicadas sobretudo aos pobres (e negros) trancados em instituições psiquiátricas. No total, cerca de 70.000 pessoas foram esterilizadas nos EUA entre 1909 e 1930.

É verdade que estas políticas caíram totalmente em desuso no Ocidente depois do pesadelo Nazi –– mas quantos não se sentem tentados a aplicados, e quantos não voltam a levantar a voz em defesa da sua aplicação?

28/03/2010

O APELO DA SELVA: Loja Gourmet

SOBRE A DEGUSTAÇÃO DAS LÍNGUAS

A predilecção do gosto humano pelo sabor e a textura das línguas de certos animais, muitas vezes pondo em risco de extinção a espécie com uma língua que agrada especialmente às populações que lhe têm acesso, vem dos confins da Antiguidade conhecida e chega praticamente aos nossos dias. Um bom exemplo, que só conheceu as primeiras medidas de travão a partir de meados do século XX, foi a quase extinção do símbolo das grandes pradarias do Oeste, o bisonte americano.

Sabe-se alguma coisa a brutalidade deste fenómeno, mas os seus passos mais íntimos são poucos conhecidos. Muita gente, por exemplo, sabe que os bisontes eram tão abundantes e pastavam tão perto da linha que, nos primeiros tempos do caminho de ferro, a gerência tinha a cortesia de emprestar uma carabina a cada passageiro, homem ou mulher, para eles se distraírem a disparar sobre estes alvos imponentes durante as longas horas da viagem. Mas pouca gente sabe da carnificina que acompanhou a expansão das linhas férreas. O famoso Buffalo Bill, inicialmente chacinador dos índios e no fim da vida dono de um circo onde se mostrava como isso se fazia e incluía personagens tão carismáticos como a própria Calamity Jane, desempenhou um papel impressionante em reduzir a população inicial de cerca de 60 milhões de bisontes até aos limites da ameaça de extinção. Em 1867, munido de um contrato para providenciar alimento substancial para as equipas de construção e condução das linhas do caminho de ferro, Bill e os seus homens mataram 4280 animais num período de apenas oito meses. Mas neste caso, ao menos, ainda podemos ter a consolação de que toda a carne foi aproveitada como elemento nutritivo. No mesmo período, outros caçadores houve que abateram centenas de bisontes sem qualquer espécie de escrúpulo, e deixaram as carcaças a apodrecer na padraria, para lhes retirarem apenas a língua –– porque a língua do bisonte era considerada um petisco incomparável em muitas áreas da região. Quando se começou a pensar na preservação dos bisontes, restavam tão poucos que tiveram que ser criteriosamente trancados em reservas.

O registo mais copioso que temos de consumo de línguas em grande profusão vem-nos do tempo das orgias romanas –– e da conhecida curiosidade dos romanos em experimentar gastronomicamente, das formas mais estranhas e elaboradas, tudo o que viesse das novas paragens da terra cognita. Nestes casos, a língua de eleição era a do flamingo.

Temos um registo interessante de um filósofo indignado do período do imperador adolescente e licencioso Heliogabalus. Em rimas precisas de métrica impecável, o filósofo descreve banquetes em que se serviram pratos enormes cobertos de cones de línguas de flamingo. Mais tarde, o historiador Suetonius conta-nos que o imperador Vitellius serviu uma confecção gigante chamada O Escudo de Minerva, feita de fígados de peixe-galo, miolos de faisão e papagaio, intestinos de lampreia, e línguas de flamingo, todos trazidos de mares distantes. A ideia destes pássaros belíssimos serem chacinados unicamente pela língua inspirou poetas e filósofos durante toda a duração do Império Romano, o que nos mostra que a degustação destas línguas foi extremamente abundante.

A maior parte das aves tem línguas finas e pontiagudas, totalmente contra-indicadas para manjares de imperadores e altos dignitários, mesmo se recolhidas em grande quantidade. O que se passa, então, com a língua do flamingo, para se ter tornado tão popular na Roma Antiga?

Os flamingos desenvolveram um modo extremamente complexo de alimentação, único entre as aves e muito raro entre todos os outros Vertebrados. Os seus bicos estão forrados com fileiras numerosas e complicadas de cornos lamelares, verdadeiros filtros, que actuam exactamente como as placas fibrosas das baleias gigantes. Incorrectamente, a ideia que fazemos dos flamingos é a de habitantes indolentes dos mares ou lagoas das ilhas tropicais luxuriantes, uma beleza que podemos contemplar da varanda do nosso hotel enquanto bebemos uma caipirinha ao por do sol –– e nada podia coincidir menos com a verdade. Na realidade, os flamingos exploram um dos habitats mais duros da Terra: os lagos hipersalinos de pouca profundidade. Hà muito poucas criaturas que aguentem a estranheza de condições destes desertos salinos. Mas aquelas que conseguem podem constituir populações enormes, porque não têm competição nem têm predadores. A estratégia de alimentação por filtragem permite aos flamingos o acesso a uma grande quantidade de presas, que apenas precisam de ser uniformes no seu tamanho. Os maiores flamingos de todos, por exemplo, filtram moluscos e crustáceos pequenos, e larvas de insectos. Mas os flamingos mais pequenos de todos têm filtros tão densos e elaborados que conseguem segregar células de algas azuis e diatomáceas com diâmetros de 0.02 a 0.1 mm.

E é depois deste processo que a famosa língua entra em acção.

Os flamingos podem limitar-se a ingerir o alimento filtrado passivamente, abanando a cabeça para a frente e para trás. Mas o sistema mais eficiente é, sem sombra de dúvida, o uso da língua.

A língua é larga e bem musculada, e funciona como uma bomba. Enche rapidamente um canal grande na porção posterior do bico. Move-se rapidamente para a frente e para trás, cerca de quatro vezes por segundo, sorvendo a água para o canal na inspiração e expelindo-a já sem alimento na expiração. Para ajudar ao processo, a superfície da língua possui vários dentículos que arrancam dos filtros a comida filtrada.

Estão a ver do que é que os romanos gostavam? Gostavam, a bem dizer, de um bom bife sem qualquer gordura e sabor a mar. Como as orgias se passavam em ambientes limitados, as populações de flamingos não chegaram a estar em risco por causa disso. Mas é bom que se note que esta língua é uma pérola complicadíssima da evolução, um daqueles exemplos complexos de livro de texto em que os defensores da biologia evolutiva se apoiam sempre que é preciso demonstrar que a evolução e a selecção natural existem mesmo. E esse magno mistério, esse sim –– os romanos estavam a engoli-lo sem desconfiar de nada.

O APELO DA SELVA: Canibalismo Sexual

CAÇADORAS DE CABEÇAS
Toda a gente conhece a história da terrível fêmea louva-a-deus que come a cabeça do macho depois da cópula. Agora, é preciso ver que, como acontece com frequência nestes casos espampanantes, história está muito mal contada –– e, claro, faltam-lhe várias pinceladas científicas para a compreendermos bem.
As primeiras suspeitas sobre estes erros tentadores apareceram no início dos anos 90, com a capacidade de introduzir boas câmaras de vídeo no habitat dos animais sem os perturbar minimamente. Seguindo este processo, alguns obvservadores anunciaram que, no seu estado natural, a fêmea copulava tranquilamente com o macho e não lhe comia a cabeça a seguir –– seria antes o stress de estar em laboratório, as luzes, o ruído, as pessoas à sua volta, que a levariam a fazer isso. Estudos posteriores revelaram que isto, de facto (a cópula sem ingestão da cabeça) pode acontecer por vezes natureza. Mas também ocorriam várias outras modalidades da prática do agora chamado canibalismo sexual, uma forma tão aceitável como qualquer outra de garantir a primazia na passagem de genes à progenia. E mais se verificou que estes fenómenos não se passavam só com a famigerada louva-a-deus.

Só restaram as asas
Para introdução à estranheza do comportamento destes animais, comecemos por uma descrição de 1886 escrita pelo naturalista L.O.Howard:
“Há alguns dias, levei um macho de Mantis carolina a um amigo que tinha em casa uma fêmea dentro de em frasco grande como animal de estimação. Assim que o pusemos dentro do mesmo jarro, o macho, alarmado, começou a tentar fugir. Em poucos minutos, a fêmea agarrou-o. Começou por comer o seu tarso frontal esquerdo, e a seguir consumiu a tíbia e o fémur. Depois atirou-se ao seu olho esquerdo. Nesta altura o macho pareceu dar-se conta de estar perto de uma fêmea da sua espécie, e começou a fazer manobras sem sucesso para copular. A fêmea engoliu o seu olho direito, e a seguir acabou por decapitá-lo inteiramente, matisgando-lhe a cabeça e mordendo-lhe o tórax. Enquanto tudo isto durava, o macho continuava com as suas tentativas de acopulamento, e finalmente conseguiu quando ela abriu voluntariamente as suas partes, e a união teve lugar. Depois ela ficou quieta durante quatro horas, e os restos do macho deram sinais ocasionais vida pelo movimento do tarso que restava durante 3 horas. Na manhã seguinte a fêmea tinha consumido tudo o que sobrava do seu amante, e só as asas ficaram.”

A importância de perder a cabeça
Esta passagem tem, para lá do seu valor documental e romanesco, o valor de nos demonstrar aquilo que raramente nos ocorreria de forma espontânea: que alguns animais, tendo perdido a cabeça, desempenham certas tarefas muito melhor do que se a tivessem no sítio.
E isto porquê? As respostas variam de caso para caso –– a galinha de cabeça cortada tem os seus motivos próprios para correr –– mas, no caso da louva a deus, o caso da activação sexual dos machos decapitados está bem estudado.
O comportamento dos insectos tem uma neurofisiologia extremamente mecânica, completamente diferente da flexibilidade da nossa. Os movimentos copulatórios da louva-a-deus são controlados por nervos do último gânglio abdominal, junto ao fundo das costas. Como seria contra-producente para a vida quotidiana os machos estarem a executar permanentemente esses movimentos, eles são suprimidos por centros inibitórios localizados no gânglio subfágico (junto à cabeça). Sendo assim, quando a fêmea engole a cabeça do macho, engole com ela o gânglio subfágico e lá se vai a inibição do movimento copulatório –– o macho, literalmente, já não faz outra coisa até morrer.
Do ponto de vista evolutivo, todo este comportamento continua a ser estranho: não deveria o macho sobreviver, por forma a copular mais vezes e legar mais genes à progenia? O que é curioso é que, em todos os machos que só copulam uma vez, o desenho dos testículos é ligeiro, o aparelho intestinal está pouco definido, exactamente porque são destinados a uma vida curta, onde desempenham uma única função. É no sentido dessa missão que todos os esforços se orientam—incluindo o comportamento do macho, que, não vivendo mais, deixa mais recursos à progenia. O canibalismo sexual é raro, e menos comum do outras variadades de consumo entre familiares, tais irmãos que comem os irmãos ou mães que comem a ninhada. Só há casos documentados entre o grupo a que pertencem os insectos, tal como a louva-a-deus e o escorpião, e também algumas aranhas.

A aproximação perigosa
A fêmea do louva-a-deus é uma caçadora feroz e muito activa, bastante maior que o macho, como acontece com todos os insectos. Sendo assim, o macho da louva-a-deus, como qualquer insecto mais pequeno que a fêmea, transforma-se em presa logo que aparece à vista.
É por isso que os machos da louva a deus são tão cuidadosos na sua aproximação à fêmea. Chegam-se sempre por trás, cautelosamente, e, se a fêmea virar os olhos na sua direcção, congelam imediatamente o movimento –– as louva a deus não conseguem ver nada que não esteja em movimento. Os machos podem ficar congelados em posições bastante curiosas durante muito tempo, e recomeçar a avançar sempre que a fêmea vira os olhos. No final da aproximação, vem o salto para infinito: ou o macho passa os seus genes à progenia, ou, alternativamente, serve apenas de jantar. Os que conseguem à primeira, por vezes fogem assim que atingem o seu objectivo. Mas, outras vezes, deixam-se estar sossegados, sem grande pressa de escapar ao seu destino fatal. E a verdade é que, em muitos destes casos, as fêmeas os deixam em paz. Provavelmente já estavam saciadas antes. Acontece exactamente o mesmo entre as aranhas, onde o macho pode deixar-se ficar languidamente a descansar na teia até morrer de subnutrição sem que a fêmea volte a dar-lhe a mais pequena atenção. Estes casos são muito mais raros entre os escorpiões, se bem que existam registos deles –– mas temos que lembrar-nos que os escorpiões tendem a viver em áreas pedregosas e desérticas, onde o acesso à proteína é bastante mais difícil.

24/11/2009

O APELO DA SELVA: O estranho caso da extinção dos ruivos

Bem. Era o que faltava. Agora, de repente, por causa de uma reportagem do National Geographic, meia dúzia de notícia, uma boa dose de blogues, e mais um anúncio à última novidade da Vodafone, desata toda a gente a dizer que os ruivos estão em vias da extinção.
Os ruivos. Uma pérola evolutiva.
Por muito que doa aos fieis devotos, é preciso recordar, uma vez mais, que nem tudo o que aparece no National Geographic é uma verdade científica estabelecida e escrita na pedra. Há hipóteses de trabalho, como esta que tantalizou os portugueses, que são extremamente sedutoras, parecem muito interessantes, chamam logo a atenção das pessoas, mas precisam de muito estudo, muito teste, muito controlo, muita verificação por outros colegas, até se poder dizer que estamos mesmo perante um dado científico. E este não é o caso, de maneira nenhuma. O argumento foi todo baseado nas ideias de ”uns geneticistas”, sem sequer sabermos o nome deles, nem onde tinham publicado os seus resultados. Isto é logo mau sinal. Assim que apareceram as primeiras notícias sobre a “extinção dos ruivos” fizeram-se logo vários estudos sérios sobre a hipótese, e o caso foi posto de lado como uma treta pura e simples. O gene dos ruivos é o gene de cor de cabelo mais raro de todos, e além de ser raro é recessivo, mas não está minimamente ameaçado de extinção. Há imensos genes raros e recessivos. Isso não quer dizer que desapareçam. Aliás, muitas vezes, no fim do dia, são exactamente esses genes raros e recessivos que salvam as populações quando, por exemplo, as condições ambientais mudam drasticamente.
Este gene, de facto, só existe em 1 a 2% da população mundial. A sua zona de maior incidência, onde vai dos 2 a 6% dos habitantes, está no Norte e no Oeste da Europa; e, daqui, passou para os descendentes destes povos em todo o mundo. O chamado redhead gene está localizado no cromossoma 16. Juntamente com o cabelo vermelho, causa uma pele muito branca, sardas, e sensibilidade aos ultravioletas. Tem outros efeitos colaterais, como estimulação de pontes dissulfido (e daí a ondulação do cabelo dos ruivos), sensibilidade acrescida à dor, maior facilidade de pequenas hemorragias internas, e (muito especulativo, isto) maior resistência aos anestésicos. O que esse gene produz é a mutação proteica MC1R, onde se dá a formação de níveis elevados do pigmento vermelho FEOMELANINA, em vez do pigmento normal EUMELANINA, que é mais escuro. É um gene recente: apareceu há qualquer tempo entre 100.000 e 20.000 anos, sendo que o Homo sapiens tem cerca de 1 milhão de anos. Pode ter sido mais difundido no Norte por conservar melhor a luz e o calor do que a pele mais escura, e também por ser sexualmente mais atractivo –– ah, imagine-se uma cabeleira vermelha contra um fundo todo branco, e o resto vem por acréscimo. Mas também pode ter sido varrido para fora de África for deriva evolutiva, por causa da sensibilidade da pele branca aos ultravioletas. Só podemos especular. Sabemos que os homens do Neanderthal também não eram estranhos ao ruivo. Mas era outro gene. A Natureza fazia experiências com o vermelho. Porquê, não tem que haver.
É importante ressalvar, para evitar mais fantasias de extinção, que ser raro e recessivo não implica ser frágil. O redhead gene é danado. Estão a ver aqueles cabo-verdianos ruivos? Traços fisionómicos africanos mas pele muito mais clara, olhos verdes, sardas, cabelo avermelhado em carapinha? Não tem nada que saber. Descendentes de negros trazidos de África para as ilhas desertas e de piratas holandeses que passavam a vida a rondar a costa. O gene encontrou o seu par e fez o que tinha a fazer. E deixou as suas marcas bem visíveis contra genes africanos dominantes como tudo. A beleza da genética, que é a beleza da humanidade, está nesta sua capacidade infinita de hipóteses combinatórias. E o tempo que um gene recessivo pode esperar, de geração em geração, até ser passado à descendência e encontrar um par que lhe sirva, já que a gente nunca sabe o que é que os nossos tetravós andaram exactamente a fazer? Se vos nascer um filho ruivo, isso não foi necessariamente por causa do canalizador da Lituânia que lá andou a fazer obras em casa. Há muito homem que só se lembra da sua ascendência irlandesa quando deixa crescer a barba e ela vem toda vermelha, ao contrário do cabelo. Muito respeitinho por este gene. Ele esperneia.
Já agora, para limpar bem o ar, convém esclarecer que a ideia da tal campanha da Vodafone que pôs toda a gente em polvorosa (“ouvi dizer que os ruivos estavam em vias de extinção e então convidei os meus amigos ruivos do mundo inteiro para uma grande festa na Praça Vermelha…”) também não tem nada de novo. Na cidade de Breda, na Holanda, celebra-se todos os anos, no primeiro fim de semana se Setembro, o festival REDHEADAY, em que se juntam milhares de ruivos naturais de 20 países diferentes. Dedicam-se a várias actividades lúdicas, todas ligadas à cor vermelha. Não tem sponsors. É todo patrocinado pelo governo. E claro, nesse festival os participantes vestem-se de verde. É a cor da roupa dos duendes. Que são ruivos. Como tudo o que é raro, o ruivo é pródigo em mitologias associadas. Do panteão celta então, onde havia montes deles, nem se fala.

06/11/2009

O APELO DA SELVA: Uma redacção muito bem esgalhada

MIGRAÇÕES NO REINO ANIMAL
Existem no reino animal espécies migratórias de todos os grandes grupos, das baleias aos patos, dos gnus às borboletas e aos salmões e tartarugas. Em todos estes casos, a migração ocorre por resposta a necessidades muito precisas da espécie: desovar, evitar o frio ou o calor, evitar a escassez de recursos alimentares, ou regressar ao ponto preciso onde deve realizar-se a reprodução, seja por motivos ambientais, como no caso do Abatroz-de-alto-mar, seja por motivos evolutivos, como é o caso da Tartaruga-do-Pacífico. Algumas migrações são regulares, repetindo-se todos os anos em resposta a relógios biológicos, sinalizações hormonais ou factores ambientais, e outras são irregulares, respondendo a factores que só ocorrem ocasionalmente. Uma boa ilustração de migração regular por resposta a factor hormonal é o das andorinhas que, mesmo que estejam numa gaiola em condições ambientais e de recursos alimentares perfeitos e imutáveis, começam a bater contra as grades e a manifestar uma enorme ansiedade quando chega a altura de partir. Um exemplo de migração regular regulada por factores ambientais é o das cegonhas do Alentejo, que deixaram de migrar para o Norte de África no Inverno quando o clima começou a aquecer e as suas condições de vida em Portugal foram artificialmente melhoradas pelo homem. Por último, indique-se um exemplo perfeito de migração irregular desencadeada por um factor ocasional: aquilo a que se chama a “migração suicida” dos lemingues.
Os lemingues são pequenos roedores do Árctico, sensivelmente do tamanho de um hamster. Regra geral, não migram. Mas se, numa determinada Primavera, as condições ambientais (clima ameno, abundância de recursos alimentares, escassez de predadores, etc) fizerem explodir em flecha o número dos contingentes populacionais, tornando a sobrevivência da população naquele local a todos os títulos insustentável, começam a afastar-se em massa do ponto de origem. Ora, como, regra geral, os seus habitats são zonas de fiordes ou línguas de tundra enfiadas por dentro de lagunas ou estreitos oceânicos, o resultado lógico é que acabam ou por despenhar-se das alturas ou afogar-se, morrendo aos milhares. É a sua forma de exercer controlo populacional. Claro que um roedor não tem consciência e livre arbítrio, e, por conseguinte, não se “suicida” –– mas esta imagem é de tal forma impressionante que ficou profundamente gravada na imaginação humana, presa a este nome de gíria antropocêntrico.
Para que as migrações animais se mantenham, com a sua importância crucial para a salvaguarda da harmonia do planeta, é necessário que a humanidade tenha extremos de cuidado com as suas actividades e a forma como interfere com a pulsação do Planeta. Actividades que começamos por considerar completamente inocentes surtem efeitos desastrosos sobre populações enormes, com uma cascata quase infindável de efeitos colaterais nocivos sobre a pirâmide de outros organismos de, de uma forma ou de outra, lhes estavam associados em cadeia. Vejamos, apenas, dois exemplos muito simples.
Os gnus das savanas do Sul de África têm rotas migratórias muito longas, extremamente complexas, que cobrem um território vastíssimo e condicionam uma cadeia complexa de plantas, simbiontes, presas e predadores. Há cerca de trinta anos, começaram a abrir-se estradas de asfalto nos territórios de migração dos gnus. As migrações ficaram imediatamente perturbadas, com consequências desastrosas para toda a cadeia que lhes estava associada: como não conheciam o asfalto, os gnus chegavam à beira dessas estradas e, pura e simplesmente, paravam. Perante o absoluto desconhecido, pura e simplesmente ficavam onde estavam, incapazes de prosseguir o seu caminho. Milhões de gnus morreram e várias áreas conheceram erosões e desertificações sem precedentes por causa deste pormenor tão simples.
A maioria das baleias migra para se juntar nas suas áreas de reprodução, e fá-lo mantendo contacto populacional por ultra-sons que as conduzem em massa até ao lugar certo. O problema é que, a partir da II Guerra Mundial, o fundo do mar foi ficando mais e mais cheio de cabos de radar, sonares de submarinos, ondas sonoras de toda a espécie de engenhos humanos, e as baleias deixaram de conseguir ouvir-se umas às outras no meio da cacofonia que se instalou nos fundos oceânicos. Hoje em dia, com numerosas espécies de grandes baleias e cachalotes ameaçados de extinção, estes animais não conseguem encontrar as suas rotas, perdem-se, dão à praia nos locais mais inesperados do Planeta –– e, inevitavelmente, não se reproduzem. Nem sequer sabemos se ainda conseguiremos chegar a salvar a baleia azul, o maior mamífero do mundo.
Claro que há muita coisa que podemos de fazer. Os acordos de Kioto, que visam reduzir a quantidade de emissões tóxicas e reverter o processo de aquecimento global, permitirá que toda a fauna migratória reencontre as suas antigas condições climatéricas e os níveis oceânicos que mantinham os seus mecanismos ancestrais a funcionar, e isso já seria uma grande ajuda. Estão em curso negociações de abolição de fronteiras entre o Zimbawe, a Africa do Sul e Moçambique na zona em que os seus parques naturais (Kruegger, Gurongosa e Kol’Abe)se fundem, para restaurar sem asfalto quase todo o território dos gnus e revitalizar a savana; e isso devolveria a África uma boa parte da sua antiga pujança natural. Há muito mais pequenos passos destes que podemos dar, mas precisamos que os grandes gigantes poluentes como a China, a Rússia e os Estados Unidos sejam os primeiros a querer __mesmo__liderar o processo.

05/10/2009

APELO DA SELVA: Sobre o Xenopus

SEMPRE SE CONHECE MAIS GENTE
A rã é sul-africana. Ao contrário do que caracteriza a nossa imagem das suas congéneres, não coaxa: é muda. E não tem culpa nenhuma de se chamar Xenopus laevis. Provavelmente terá outro nome, em zulu, ou em ronga, mas os comunidade científica internacional nem quis saber: agarrou no nome científico do bicho e transpô-lo, assim mesmo, para as bancadas dos laboratórios. Hoje há quem tenha aquários com eles em casa porque os seus olhos de pérola são encantadores e as suas mãos espalmadas de dedos em garra são muito queridas, mas o animal de estimação não deixou de chamar-se Xenopus com a mudança de estatuto. O nome dele vale 65 pontos num jogo de Scrabble.
O que se segue é a demonstração de como os modelos científicos nos são úteis, em três entradas de escala de interesse crescente.
1 – UM XENOPUS SERVE DE TESTE DE GRAVIDEZ
Basta qualquer mulher injectar um bocadinho de urina por baixo da pele de uma fêmea de Xenopus. Se a mulher estiver grávida, a rã começa logo a ovular.
2 – VÃO ENSINAR-NOS MAIS SOBRE O AUTISMO
Alguns laboratórios começaram recentemente a fundir ovos de Xenopus com células cerebrais de autistas mortos. Estes modelos compostos são úteis porque mantêm os neurónios a funcionar como se ainda estivessem num cérebro humano, mas a parte anfíbia que diz respeito ao ovo não responde a todas as substâncias químicas e aos neurotransmissores que estão a ser testados.
3 – SEMPRE SE CONHECE MAIS GENTE
Atenção que o planeamento da 13th International Xenopus Conference de 2010 já começou. Sempre é uma maneira original e criativa de conhecer mais gente.