21/08/2010

O APELO DA SELVA: Morte aos feios!

A EUGENIA TEM RAÍZES PROFUNDAS
O inglês Francis Galton cunhou a palavra "eugenia" a partir do grego "eugenés", ou seja, "bem nascido". Portanto, esticando um bocado a corda, foi fácil declarar que a Eugenia, oficialmente criada na Grã-Bretanha em 1883, já era uma ideia corrente na Antiguidade Clássica. Sempre era mais bonita. Os Gregos já tinham por prática envidar esforços no sentido de ir diminuindo os números dos menos equipados para o funcionamento da sociedade. Os primeiros eugenistas britânicos gostavam de repetir esta memória, evitando até o esclarecimento de que por menor capacidade de integração na sociedade se aplicava fosse por tolice ou por aleijão. Dizer isto causava menos desconforto, e era francamente menos chocante, do que a noção subjacente à eugenia de que, já que se nem todos os indivíduos são dotados das melhores qualidades físicas e mentais, nem todos podem ter o direito a reproduzir-se.


A ideia pode ter conhecido variações mais ou menos interessantes, mas a eugenia tal como a conhecemos hoje ganhou os seus primeiros contornos no início do século XIX, nomeadamente com o trabalho de Thomas Malthus. Os seus estudos sobre as “leis” da inevitabilidade biológica da sobrepopulação assombraram sobretudo a alta finança europeia, que ouviu o estatístico inglês com muita atenção. Malthus fez notar que não era de forma nenhuma impossível que, com cruzamentos selectivos “pode ocorrer entre os homens, por métodos idênticos aos praticados nos animais, um certo grau de melhoramento”. Mas acrescentou, muito claramente, “como a raça humana não pode ser atingida por esta via, a menos que condenemos todos os maus espécimes ao celibato, não é provável que se generalize a atenção ao cruzamento selectivo”.

Claro que, ao fazer a afirmação pela negativa, Malthus estava, na realidade, a estimular os seus colegas a atacarem-na pela positiva. E não foram poucos os que lhe responderam ao repto.

Por exemplo, em 1850 o cientista francês Prosper Lucas escreveu um dos tratados sobre hereditariedade mais lidos e circulados do período. O tratado continha as árvores genealógicas das características morais e mentais de criminosos condenados, com um pedido veemente endereçado ao governo francês para que impedisse a continuação da propagação destas linhagens, para que, desta forma, a criminalidade fosse desaparecendo de geração para geração e a sociedade francesa melhorasse substancialmente.

Depois de Mendel e Malthus, seria Darwin o cientista a contribuir de seguida para o estabelecimento da eugenia. O pai da eugenia, o cientista, viajante, geógrafo e estatístico Francis Galton, começou a publicar ensaios sobre a hereditariedade humana e as políticas sociais em 1865, pouco depois de ter lido A Origem das Espécies. A evolução deu a Galton as ideias que faltavam para formar o núcleo duro da eugenia: o significado das variações hereditárias nos cruzamentos domésticos, a sobrevivência do mais apto na luta pela vida, a analogia entre os cruzamentos domésticos e a selecção natural. Estas ideias foram desenvolvidas substancialmente no livro Hereditary Genius, de 1869, que é considerado, ainda hoje, como o texto fundador da eugenia.



Embora muitos cientistas europeus de grande nível, como o próprio Darwin, se sentissem atraídos pelo conceito de controlar a hereditariedade humana no sentido de melhorar as suas populações, a verdade é que, até ao fim do século XIX, a repugnância moral e política pela interferência na reprodução humana continuaram a impedir que os argumentos eugénicos se transformassem em acções. Basicamente, os seguidores de Galton defendiam que, à medida que evoluía, a sociedade se tornava cada vez mais capaz de proteger os seus membros mais frágeis e menos capazes de adaptação –– mas essa mesma sociedade poderia melhorar muito mais rapidamente se, ao mesmo tempo, se tomassem medidas expeditivas para que esses mesmos desadaptados não deixassem descendência, por forma a irem sendo eliminados geneticamente. No entanto, de início nenhum país europeu quis enveredar por este tipo de políticas.

As atitudes sociais só começaram a mudar no final do século XIX, quando as consequências mais perniciosas da revolução industrial deram lugar a uma atmosfera generalizada de pessimismo que fez com que, em vez de evolução, se passasse a falar em degeneração. O crime, os vícios, a entrada das mulheres para o mercado de trabalho, a imigração, a vida em ambientes maioritariamente urbanos, eram geralmente acusados da sua ocorrência. A crença generalizada de que as "doenças dos pobres", como a tuberculose, a síflis, o alcoolismo e os problemas mentais, eram hereditárias, tornava a perspectiva ainda mais alarmante e começou a levar a apelos para que não se perpetuasse a cadeia de "multiplicação rápida dos inadaptados". Galton insistia que a sociedade estava a sustentar mais do que podia e ou começava a aplicar sistematicamente a selecção dos seus melhores espécimes para reprodução em cada geração, fazendo em poucas gerações o que a selecção natural faz em milénios, ou acabaria completamente degenerada.

Na última década do século XIX, o biólogo austríaco August Weissman anuncia, pela primeira vez, que o material genético contido do núcleo é "imortal" (no sentido em que se transmite de geração em geração sem nunca se alterar, ao longo de toda uma linhagem), e que é ele que assegura a transmissão dos caracteres hereditários, em total independência dos restantes acontecimentos celulares. Isto, obviamente, é música para os ouvidos de quem defende teorias de engenharia social segundo as quais os "inadaptados" não devem reproduzir-se: se a mensagem hereditária é imortal e não há nada que possa alterá-la, então, logicamente, um inadaptado só poderá dar origem a mais inadaptados.

É sempre difícil dizermos se cientistas como Francis Galton são neutros em relação ao material científico que produzem e é a sociedade que se apropria dos seus dados para legitimar políticas moralmente complexas, ou se os próprios cientistas já tinham, à partida, essas mesmas ideias, e apenas procuraram dar-lhes uma qualquer forma de validação científica. O que é certo é que, depois de Weissman e do aproveitamento que Galton fez da sua teoria da imortalidade da linhagem germinal, começou a ser vulgar encontrarmos nas publicações científicas passagens como esta, de Karl Pearson, o primeiro Professor de Eugenia da London University: "Nenhum conjunto de espécimes degenerado e pobre de espírito poderá alguma vez dar a origem a populações saudáveis e produtivas pelos efeitos acumulados de boa educação, boa legislação, e boas condições sanitárias. Gastámos o nosso dinheiro no ambiente onde afinal é a hereditariedade quem ganha". Embora os eugenistas tenham sido sempre uma minoria, e tenham encontrado resistência sobretudo nos países em que a tradição dos sistemas nacionais de saúde já se encontrava bem desenvolvida e enraizada, despertavam suficiente curiosidade e eram suficientemente sedutores para constituírem sociedades em numerosos países, e ocuparem novas cátedras em numerosas universidades. Em 1930, o eugenista inglês Wicksteed Armstrong não hesitou em escrever no seu livro The Survival of the Unfittest: "Para diminuir a fertilidade perigosa dos inadaptados há três métodos: a câmara letal, a segregação e a esterilização".

É preciso ver que nem todas as propostas dos eugenistas chegavam a estes extremas, e nem todas vinham da extrema-direita ou se destinavam a purificações raciais de cariz proto-nazi. Na Dinamarca, entre 1930 e 1949, esterilizaram-se mais de 8.500 pessoas na tentativa de erradicar anormalidades sexuais e físicas, ao abrigo de uma lei de 1929 que, nas palavras do médico dinamarquês Tage Kemp, visava permitir à sociedade "tornar as condições de vida toleráveis para todos". Na Suécia, onde o Estado criou em 1921 o Instituto para a Biologia da Raça em associação com a Universidade de Upsala, pelo menos 15.000 doentes mentais foram esterilizados por razões de eugenia ao abrigo de uma lei aprovada em 1934, destinada a "proteger os indivíduos do sofrimento individual causado pela hereditariedade".

Mas o país de políticas eugénicas mais activas antes de 1930 foi de longe os Estados Unidos. Em 1920, 24 estados já tinham aprovado leis de esterilização, aplicadas sobretudo aos pobres (e negros) trancados em instituições psiquiátricas. No total, cerca de 70.000 pessoas foram esterilizadas nos EUA entre 1909 e 1930.

É verdade que estas políticas caíram totalmente em desuso no Ocidente depois do pesadelo Nazi –– mas quantos não se sentem tentados a aplicados, e quantos não voltam a levantar a voz em defesa da sua aplicação?

10/08/2010

BIOGRAFIA: Carlos Almaça (1934-2010)


Já neste espaço se falou da importância que tem nos estudos presentes o conhecimento do passado relativo aos sucessos científicos. Carlos Almaça, importante biólogo e investigador português, não deixou de explorar o passado, para que se não esquecessem os factos que conduziram os trabalhos científicos até onde actualmente se encontram. É deste professor universitário, antigo director do Museu Bocage e falecido no passado dia 3 de Agosto, que vamos falar brevemente. Carlos Alberto da Silva Almaça nasceu em Lisboa a 29 de Dezembro de 1934. Em Outubro de 1957, quase a fazer 23 anos, licenciou-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em Ciências Biológicas. Na mesma instituição, concluiu o doutoramento em Março de 1968, com a tese Estudo das Populações Portuguesas do Gén. Barbus Cuvier, 1817 (Pisces, Cyprinidae). Exercendo a docência na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, pôde também dedicar-se à investigação por meio das bolsas de estudo de que beneficiou. Além de se ter dedicado à Zoologia e aos estudos evolutivos de várias espécies, Carlos Almaça deixou importantes contributos para a História da Ciência e das ideias em Biologia. Teve ainda durante 20 anos o cargo de director do Museu Bocage, departamento de Zoologia do Museu de História Natural de Lisboa. Diz Maria Amélia Martins Loução, vice-presidente da Universidade de Lisboa: “Constituiu os primeiros gabinetes de história natural e foi ele quem começou a coleccionar documentos sobre fauna e flora relacionados com o pensamento filosófico dos séculos XVII e XVIII”. Como docente e investigador, Carlos Almaça, que estudou sempre e persistentemente, apoiou muitos dos seus alunos, sendo em parte responsável pelo caminho profissional que alguns tomaram. Da sua obra, destacamos alguns volumes:

Contribuição para o Estudo da Zonação Marinha do Litoral Português, 1960
Variabilidade de Alguns Caracteres Usados na Taxonomia do Gén. Carcinus Leach, 1961
Sur les Crabes du Genre Xanto Leach, 1815, du Muséum Zoologique de l’Université de Coimbra, 1963
Contribution à la Connaissance des poissons des eaux intérieurs du Portugal, 1965
As Classificações Zoológicas. Aspectos Históricos, 1991
Evolutionism in Portugal, 1993
Bosquejo Histórico da Zoologia em Portugal, 1993
Evolutionism and Mendelism, 1994
Fish species and varieties introduced into Portuguese inland waters, 1995
"Falconers: the first Portuguese naturalists", in Archives of Natural History, 24, pp. 175-187, 1997
O Homem Medieval e a Biodiversidade, 2000


Fontes:

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa - Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, vol. 1 (Actualização), p.236, s.v. "Almaça (Carlos Alberto da Silva)";

Diário de Notícias, Ano 146º, nº 51620, p.53 [6 de Agosto de 2010].
(Daqui vieram quer a imagem, quer a citação que temos no texto.)

01/07/2010

A VER: Ilustrações de aves na Histoire Naturelle de Buffon

Georges Louis Leclerc de Buffon (1707-1788), naturalista francês, fez publicar a obra Histoire Naturelle de 1749 até 1804, mais de dez anos após a sua morte. Tinha aquela 44 volumes e gozou de assinalável popularidade no seu tempo. Por considerar as espécies susceptíveis de variação, é tido como um dos precursores de Charles Darwin. Foi botânico e zoólogo, mas os seus estudos sobre os povos da Terra, fazem-no igualmente um dos criadores da Etnologia moderna. Na imagem: à esquerda, araras e papagaio; à direita, calaus.
Fontes:
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.5, Lisboa - Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, s.d., p.176, s.v. "Buffon (Georges Louis Leclerc, conde de)"; The New Caxton Encyclopedia, vol.3, London, The Caxton Publishing Company, 1973, p.896, s.v. "Buffon, Georges Louis Leclerc de" [daqui veio a imagem].

21/05/2010

PARA SEMPRE: Aulo Gélio

"Consistiam [as cerimónias do noivado romano no tempo do Império] numa promessa recíproca entre os noivos com o consentimento dos respectivos pais e perante certo número de parentes e amigos (...). Concretizava-se esta promessa na entrega pelo noivo à noiva de presentes mais ou menos onerosos e de um anel simbólico (...) em certos casos de ferro dourado, noutros de oiro como as nossas alianças. A noiva tinha o cuidado de o meter imediatamente no dedo em que ainda hoje habitualmente se usam as nossas alianças, ou seja, «o dedo vizinho do dedo mínimo da esquerda», a que nós chamamos por isso mesmo o «anular» palavra derivada do baixo latim (annularius). Esquecemos já a razaão pela qual os Romanos escolheram para o efeito este dedo, mas Aulo Gélio [autor latino do século II d. C.] explica-no-la com um laborioso rodeio: «Quando se abre o corpo humano, como fazem os Egípcios, (...) encontra-se um nervo muito fino que parte do anular e chega ao coração. Julga-se conveniente conceder a honra do anel a este dedo, de preferência a outro, por causa da estreita conexão, da espécie de laço que o une ao órgão principal». Com esta relação directa estabelecida em nome de uma ciência imaginária entre o coração e o anel de noivado Aulo Gélio quis evidentemente sublinhar a seriedade com que se encarava o noivado, a solenidade do compromisso que ele consagrava, e principalmente a profundeza do sentimento de recíproca afeição que lhe atribuíam os contemporâneos (...)."
Jérôme Carcopino, A Vida Quotidina em Roma no Apogeu do Império, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., pp.106-107.

28/03/2010

O APELO DA SELVA: Loja Gourmet

SOBRE A DEGUSTAÇÃO DAS LÍNGUAS

A predilecção do gosto humano pelo sabor e a textura das línguas de certos animais, muitas vezes pondo em risco de extinção a espécie com uma língua que agrada especialmente às populações que lhe têm acesso, vem dos confins da Antiguidade conhecida e chega praticamente aos nossos dias. Um bom exemplo, que só conheceu as primeiras medidas de travão a partir de meados do século XX, foi a quase extinção do símbolo das grandes pradarias do Oeste, o bisonte americano.

Sabe-se alguma coisa a brutalidade deste fenómeno, mas os seus passos mais íntimos são poucos conhecidos. Muita gente, por exemplo, sabe que os bisontes eram tão abundantes e pastavam tão perto da linha que, nos primeiros tempos do caminho de ferro, a gerência tinha a cortesia de emprestar uma carabina a cada passageiro, homem ou mulher, para eles se distraírem a disparar sobre estes alvos imponentes durante as longas horas da viagem. Mas pouca gente sabe da carnificina que acompanhou a expansão das linhas férreas. O famoso Buffalo Bill, inicialmente chacinador dos índios e no fim da vida dono de um circo onde se mostrava como isso se fazia e incluía personagens tão carismáticos como a própria Calamity Jane, desempenhou um papel impressionante em reduzir a população inicial de cerca de 60 milhões de bisontes até aos limites da ameaça de extinção. Em 1867, munido de um contrato para providenciar alimento substancial para as equipas de construção e condução das linhas do caminho de ferro, Bill e os seus homens mataram 4280 animais num período de apenas oito meses. Mas neste caso, ao menos, ainda podemos ter a consolação de que toda a carne foi aproveitada como elemento nutritivo. No mesmo período, outros caçadores houve que abateram centenas de bisontes sem qualquer espécie de escrúpulo, e deixaram as carcaças a apodrecer na padraria, para lhes retirarem apenas a língua –– porque a língua do bisonte era considerada um petisco incomparável em muitas áreas da região. Quando se começou a pensar na preservação dos bisontes, restavam tão poucos que tiveram que ser criteriosamente trancados em reservas.

O registo mais copioso que temos de consumo de línguas em grande profusão vem-nos do tempo das orgias romanas –– e da conhecida curiosidade dos romanos em experimentar gastronomicamente, das formas mais estranhas e elaboradas, tudo o que viesse das novas paragens da terra cognita. Nestes casos, a língua de eleição era a do flamingo.

Temos um registo interessante de um filósofo indignado do período do imperador adolescente e licencioso Heliogabalus. Em rimas precisas de métrica impecável, o filósofo descreve banquetes em que se serviram pratos enormes cobertos de cones de línguas de flamingo. Mais tarde, o historiador Suetonius conta-nos que o imperador Vitellius serviu uma confecção gigante chamada O Escudo de Minerva, feita de fígados de peixe-galo, miolos de faisão e papagaio, intestinos de lampreia, e línguas de flamingo, todos trazidos de mares distantes. A ideia destes pássaros belíssimos serem chacinados unicamente pela língua inspirou poetas e filósofos durante toda a duração do Império Romano, o que nos mostra que a degustação destas línguas foi extremamente abundante.

A maior parte das aves tem línguas finas e pontiagudas, totalmente contra-indicadas para manjares de imperadores e altos dignitários, mesmo se recolhidas em grande quantidade. O que se passa, então, com a língua do flamingo, para se ter tornado tão popular na Roma Antiga?

Os flamingos desenvolveram um modo extremamente complexo de alimentação, único entre as aves e muito raro entre todos os outros Vertebrados. Os seus bicos estão forrados com fileiras numerosas e complicadas de cornos lamelares, verdadeiros filtros, que actuam exactamente como as placas fibrosas das baleias gigantes. Incorrectamente, a ideia que fazemos dos flamingos é a de habitantes indolentes dos mares ou lagoas das ilhas tropicais luxuriantes, uma beleza que podemos contemplar da varanda do nosso hotel enquanto bebemos uma caipirinha ao por do sol –– e nada podia coincidir menos com a verdade. Na realidade, os flamingos exploram um dos habitats mais duros da Terra: os lagos hipersalinos de pouca profundidade. Hà muito poucas criaturas que aguentem a estranheza de condições destes desertos salinos. Mas aquelas que conseguem podem constituir populações enormes, porque não têm competição nem têm predadores. A estratégia de alimentação por filtragem permite aos flamingos o acesso a uma grande quantidade de presas, que apenas precisam de ser uniformes no seu tamanho. Os maiores flamingos de todos, por exemplo, filtram moluscos e crustáceos pequenos, e larvas de insectos. Mas os flamingos mais pequenos de todos têm filtros tão densos e elaborados que conseguem segregar células de algas azuis e diatomáceas com diâmetros de 0.02 a 0.1 mm.

E é depois deste processo que a famosa língua entra em acção.

Os flamingos podem limitar-se a ingerir o alimento filtrado passivamente, abanando a cabeça para a frente e para trás. Mas o sistema mais eficiente é, sem sombra de dúvida, o uso da língua.

A língua é larga e bem musculada, e funciona como uma bomba. Enche rapidamente um canal grande na porção posterior do bico. Move-se rapidamente para a frente e para trás, cerca de quatro vezes por segundo, sorvendo a água para o canal na inspiração e expelindo-a já sem alimento na expiração. Para ajudar ao processo, a superfície da língua possui vários dentículos que arrancam dos filtros a comida filtrada.

Estão a ver do que é que os romanos gostavam? Gostavam, a bem dizer, de um bom bife sem qualquer gordura e sabor a mar. Como as orgias se passavam em ambientes limitados, as populações de flamingos não chegaram a estar em risco por causa disso. Mas é bom que se note que esta língua é uma pérola complicadíssima da evolução, um daqueles exemplos complexos de livro de texto em que os defensores da biologia evolutiva se apoiam sempre que é preciso demonstrar que a evolução e a selecção natural existem mesmo. E esse magno mistério, esse sim –– os romanos estavam a engoli-lo sem desconfiar de nada.

O APELO DA SELVA: Canibalismo Sexual

CAÇADORAS DE CABEÇAS
Toda a gente conhece a história da terrível fêmea louva-a-deus que come a cabeça do macho depois da cópula. Agora, é preciso ver que, como acontece com frequência nestes casos espampanantes, história está muito mal contada –– e, claro, faltam-lhe várias pinceladas científicas para a compreendermos bem.
As primeiras suspeitas sobre estes erros tentadores apareceram no início dos anos 90, com a capacidade de introduzir boas câmaras de vídeo no habitat dos animais sem os perturbar minimamente. Seguindo este processo, alguns obvservadores anunciaram que, no seu estado natural, a fêmea copulava tranquilamente com o macho e não lhe comia a cabeça a seguir –– seria antes o stress de estar em laboratório, as luzes, o ruído, as pessoas à sua volta, que a levariam a fazer isso. Estudos posteriores revelaram que isto, de facto (a cópula sem ingestão da cabeça) pode acontecer por vezes natureza. Mas também ocorriam várias outras modalidades da prática do agora chamado canibalismo sexual, uma forma tão aceitável como qualquer outra de garantir a primazia na passagem de genes à progenia. E mais se verificou que estes fenómenos não se passavam só com a famigerada louva-a-deus.

Só restaram as asas
Para introdução à estranheza do comportamento destes animais, comecemos por uma descrição de 1886 escrita pelo naturalista L.O.Howard:
“Há alguns dias, levei um macho de Mantis carolina a um amigo que tinha em casa uma fêmea dentro de em frasco grande como animal de estimação. Assim que o pusemos dentro do mesmo jarro, o macho, alarmado, começou a tentar fugir. Em poucos minutos, a fêmea agarrou-o. Começou por comer o seu tarso frontal esquerdo, e a seguir consumiu a tíbia e o fémur. Depois atirou-se ao seu olho esquerdo. Nesta altura o macho pareceu dar-se conta de estar perto de uma fêmea da sua espécie, e começou a fazer manobras sem sucesso para copular. A fêmea engoliu o seu olho direito, e a seguir acabou por decapitá-lo inteiramente, matisgando-lhe a cabeça e mordendo-lhe o tórax. Enquanto tudo isto durava, o macho continuava com as suas tentativas de acopulamento, e finalmente conseguiu quando ela abriu voluntariamente as suas partes, e a união teve lugar. Depois ela ficou quieta durante quatro horas, e os restos do macho deram sinais ocasionais vida pelo movimento do tarso que restava durante 3 horas. Na manhã seguinte a fêmea tinha consumido tudo o que sobrava do seu amante, e só as asas ficaram.”

A importância de perder a cabeça
Esta passagem tem, para lá do seu valor documental e romanesco, o valor de nos demonstrar aquilo que raramente nos ocorreria de forma espontânea: que alguns animais, tendo perdido a cabeça, desempenham certas tarefas muito melhor do que se a tivessem no sítio.
E isto porquê? As respostas variam de caso para caso –– a galinha de cabeça cortada tem os seus motivos próprios para correr –– mas, no caso da louva a deus, o caso da activação sexual dos machos decapitados está bem estudado.
O comportamento dos insectos tem uma neurofisiologia extremamente mecânica, completamente diferente da flexibilidade da nossa. Os movimentos copulatórios da louva-a-deus são controlados por nervos do último gânglio abdominal, junto ao fundo das costas. Como seria contra-producente para a vida quotidiana os machos estarem a executar permanentemente esses movimentos, eles são suprimidos por centros inibitórios localizados no gânglio subfágico (junto à cabeça). Sendo assim, quando a fêmea engole a cabeça do macho, engole com ela o gânglio subfágico e lá se vai a inibição do movimento copulatório –– o macho, literalmente, já não faz outra coisa até morrer.
Do ponto de vista evolutivo, todo este comportamento continua a ser estranho: não deveria o macho sobreviver, por forma a copular mais vezes e legar mais genes à progenia? O que é curioso é que, em todos os machos que só copulam uma vez, o desenho dos testículos é ligeiro, o aparelho intestinal está pouco definido, exactamente porque são destinados a uma vida curta, onde desempenham uma única função. É no sentido dessa missão que todos os esforços se orientam—incluindo o comportamento do macho, que, não vivendo mais, deixa mais recursos à progenia. O canibalismo sexual é raro, e menos comum do outras variadades de consumo entre familiares, tais irmãos que comem os irmãos ou mães que comem a ninhada. Só há casos documentados entre o grupo a que pertencem os insectos, tal como a louva-a-deus e o escorpião, e também algumas aranhas.

A aproximação perigosa
A fêmea do louva-a-deus é uma caçadora feroz e muito activa, bastante maior que o macho, como acontece com todos os insectos. Sendo assim, o macho da louva-a-deus, como qualquer insecto mais pequeno que a fêmea, transforma-se em presa logo que aparece à vista.
É por isso que os machos da louva a deus são tão cuidadosos na sua aproximação à fêmea. Chegam-se sempre por trás, cautelosamente, e, se a fêmea virar os olhos na sua direcção, congelam imediatamente o movimento –– as louva a deus não conseguem ver nada que não esteja em movimento. Os machos podem ficar congelados em posições bastante curiosas durante muito tempo, e recomeçar a avançar sempre que a fêmea vira os olhos. No final da aproximação, vem o salto para infinito: ou o macho passa os seus genes à progenia, ou, alternativamente, serve apenas de jantar. Os que conseguem à primeira, por vezes fogem assim que atingem o seu objectivo. Mas, outras vezes, deixam-se estar sossegados, sem grande pressa de escapar ao seu destino fatal. E a verdade é que, em muitos destes casos, as fêmeas os deixam em paz. Provavelmente já estavam saciadas antes. Acontece exactamente o mesmo entre as aranhas, onde o macho pode deixar-se ficar languidamente a descansar na teia até morrer de subnutrição sem que a fêmea volte a dar-lhe a mais pequena atenção. Estes casos são muito mais raros entre os escorpiões, se bem que existam registos deles –– mas temos que lembrar-nos que os escorpiões tendem a viver em áreas pedregosas e desérticas, onde o acesso à proteína é bastante mais difícil.

23/02/2010

PARA SEMPRE: Eça de Queiroz

"E pensarmos nós, caro Chagas, que enquanto você está aí ocupado a compor no "Atlântico" uma formidável equação algébrica, para provar (Deus me perdoe!) não sei que coisas sinistras sobre as Molucas; enquanto eu estou aqui abandonado a este palrar indiscreto - o grande Darwin publica o seu livro do "Movimento das Plantas", o professor Huxley lança o seu grande manifesto da "Educação Científica contra a Educação Clássica", Zola dá-nos o seu prodigioso trabalho sobre "Gustavo Flaubert", tantos outros trabalham e criam, e o Génio do século forja, com um ruído sublime, na sua bigorna de bronze e ouro, as ideias e as palavras que ficam. E nós aqui a escrevinharmos não sei que coisinhas minúsculas, que, apenas rabeiam um momento sobre o papel, são logo pó imperceptível!..." [a propósito de um artigo de Eça de Queiroz sobre Portugal, que Pinheiro Chagas disse ter insultado o País]
Eça de Queiroz, Notas Contemporâneas, Lisboa, Livros do Brasil, 2000, pp.60-61 [primeira edição em 1909, póstuma].

A VER: O Botânico da primeira metade do século XIX



Fonte: Marcia Willis, Jungle, Rivers and Mountain Peaks, London, Aldus Books Limited, 1973, p.110.

AGENDA: Identificação de Aves

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), está a organizar um Curso de Identificação de Aves Marinhas, a realizar-se em Peniche e Cabo Carvoeiro, nos dia 2, 3 e 4 de Abril.

Mais informações sobre esta iniciativa e a Associação em: http://www.spea.pt/

AGENDA: Cursos LPN

A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) no próximo mês de Março três cursos de formação ambiental.

1-Protecção de solos (em colaboração com a Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo), terá lugar em Lisboa, de 1 a 6 de Março. 2ª a 6ª feira das 18h-21h e Sábado, das 9h às 16h30.

2- Educação Ambiental II: Sustentabilidade nas cidades, no consumo e nos resíduos. Terá lugar em Lisboa, de 12 a 14 de Março. 6ª feira, das 18h-21h; Sábado, das 9h às 18h30; Domingo, das 9h às 13h.

3- Avaliação de Impacte Ambiental. Lisboa, de 15 a 19 de Março. 2ª a 6ª feira, das 18h às 22h.

Mais informações no site da LPN - Formação:
www.projectos.lpn.pt/formacao

02/02/2010

BIOGRAFIA: Rómulo de Carvalho - Vida e Obra III

Com este breve esboço biográfico, tentei dar a conhecer Rómulo de Carvalho como pessoa e como divulgador de ciência. Termino esta viagem, com Rómulo de Carvalho enquanto poeta. Lembro que a sua poesia era assinada sob o pseudónimo de António Gedeão, sendo da sua autoria, poemas de sempre como "A Pedra Filosofal" ou "Lágrima de Preta". Este último poema transcrevo-o em baixo. Note-se
o talento de Rómulo, que até conseguiu que as suas duas amantes vivessem juntas - refiro-me, claro, à ciência e à poesia. Não esquecer que o dia 24 de Novembro, dia do seu nascimento, é celebrado desde 1997, como o Dia Nacional da Cultura Científica. Sem mais delongas, segue o poema.

“Lágrima de Preta” – António Gedeão in Máquina de Fogo

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio."

BIOGRAFIA: Rómulo de Carvalho - Vida e Obra II

A História Natural em Portugal no Século XVIII

Da vasta obra publicada pelo cientista Rómulo de Carvalho, saliento, neste texto, A História Natural em Portugal no Século XVIII (1987). Abordarei, brevemente, alguns dos capítulos, deixando o mote para a leitura integral deste livro, pequeno em tamanho, mas grande em interesse. São cerca de 100 páginas, divididas por seis capítulos, que se lêem de uma assentada.

A História Natural

Assim, o livro principia com o capítulo dedicado ao interesse pela História Natural no nosso país, no século em estudo. Este interesse terá tido origem em dois factores, a saber: o facto de os portugueses estarem espalhados pelo mundo, em vários continentes, com acesso a plantas, animais e minerais, muitos deles nunca antes revelados; e pelo contacto com a euforia com que os cientistas estrangeiros se dedicavam à recolha, observação, catalogação de tudo o que encontravam. Para além do mero interesse e curiosidade pelo que é estranho e novo, havia também uma preocupação económica e científica – notar que ciência e economia caminham sempre juntas, uma vez que investindo na primeira, melhora-se a segunda. A fauna observada permitiu uma variedade de tratados zoológicos, aclamados a nível académico e, simultaneamente, causando espanto junto da sociedade; a nível geológico e mineralógico ansiava-se perante a possibilidade da descoberta de metais e pedras preciosas; e, atendendo à flora, esperava-se encontrar plantas com valor comercial, como a canela e a pimenta, assim como com valor medicinal, e de onde surgiram publicações de enorme impacto científico, recordadas ainda hoje, como Colóquios dos Simples e Drogas da Índia de Garcia de Orta.

É a flora do nosso país que parece cativar mais interessados, não só portugueses, como também inúmeros estrangeiros. Reinava D. João IV, quando chegou a Portugal o médico alemão Gabriel Grisley, cujo interesse pela nossa flora originou a publicação de Viridarium Lusitanicum (1661), ou seja, O Jardim da Lusitânia [1]. Pela mesma razão, vieram também a Portugal, anos mais tarde, os botânicos franceses Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708) e Antoine de Jussieu (1686-1758).

Outro naturalista que visitou Portugal foi Merveilleux [2], e que, a pedido do monarca D. João V, cá permaneceu com a missão de realizar a História Natural de Portugal, deixando-se encantar, desde logo, pela Natureza de Sintra e, em particular, pela sua flora. Para além da sua obra científica, este autor pouco conhecido foi também um grande crítico da realidade portuguesa. A nível económico não compreendia os dispêndios de dinheiro na importação de bagas de zimbro, vindas da Holanda, quando elas existiam nas serras nacionais. A nível religioso, lamentou o excesso de poder da Igreja [3] que se revelava nefasto para a busca de conhecimento: “Neste país tudo é olhado como mistério ou feitiçaria, isto é, sortilégio ou magia. Aqui nem um homem de ciência se pode mostrar curioso e pretender instruir-se pois tem sempre receio de ser molestado pelo Santo Ofício.”[4]

Vandelli – Os Museus e os Jardins Botânicos

É também no século XVIII que se executa uma reforma na educação em Portugal, primeiro no ensino primário (1759) e, posteriormente, no universitário (1772), com a expulsão dos jesuítas, a mando de Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal (1699-1782). A História Natural era leccionada na Faculdade de Filosofia, tendo sido necessário, como complemento, criar um museu e um jardim botânico.

Domenico Vandelli (1735-1816), doutorado em Filosofia e Medicina, foi professor universitário em Pádua, até ser chamado, em 1768, pelo Marquês de Pombal para estabelecer o Jardim Botânico, junto ao Palácio da Ajuda. Este jardim serviria não só para lazer dos soberanos, mas também para experiências botânicas com vista ao melhoramento da agricultura nacional e, subsequentemente, da economia. O italiano, que já estivera em Portugal em 1764, aceitou o convite, talvez por conselho do célebre naturalista sueco Carl Lineu (1707-1778), como sugere uma carta datada de 12 de Fevereiro de 1765. Vandelli passou a leccionar História Natural e Química em Coimbra, tendo deixado o Jardim Botânico da Ajuda, do qual era director, ao cuidado do seu jardineiro Julio Mattiazzi. Num Verão em que visitou Lisboa para ver como se desenvolvia o seu jardim, constatou que este havia sido negligenciado por Mattiazzi em favor do Museu de História Natural, o que levou à perda de milhares de espécies de plantas.

Podemos encontrar outros jardins botânicos portugueses da época, tais como o Jardim botânico de suas altezas (pertencia à Casa Real) em Palhavã (Lisboa); o Jardim Botânico anexo ao palácio do Marquês de Angeja; outro em S. Sebastião da Pedreira (só se sabe que pertencia a um “provedor dos armazéns”); outro, em Benfica, do Marquês de Abrantes; e no Porto de um negociante inglês Francisco Biasly, como indica o autor, R. de Carvalho.[5]

Podemos, neste livro, encontrar, ainda, informação relativa a cientistas portugueses e ao seu contributo académico, viagens realizadas pelo mundo em busca de mais conhecimento sobre a natureza, e um capítulo dedicado à História Natural como matéria de ensino, preconizada por ilustres pensadores como Luís António Verney (1713-1792), António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), ou Padre Teodoro de Almeida (1722-1804). De salientar que este último, na sua obra, debruçou-se sobre temas como a embriogénese humana e a alma nos homens e animais.


Este texto não pretende ser um resumo, mas sim breves indicações do que pode ser encontrado na leitura deste livro tão importante para a nossa cultura geral, histórica, patrimonial, ou científica.


[1] De acordo com a Acta da Sessão de 16 de Novembro de 1788 da Academia de Ciências de Lisboa, esta obra é considerada a primeira sobre a flora portuguesa. Voltou a ser reeditada, em 1789, por ordem da Academia de Ciências, a pedido de Domenico Vandelli, na época professor de História Natural na Universidade de Coimbra, que pretendia corresponder as regras de classificação estabelecidas por Lineu a essas plantas, como explica R. de Carvalho.
[2] Personagem relevante para a compreensão da História Portuguesa da época. Como sugestão de R. de Carvalho, ler: O Portugal de D. João V visto por três forasteiros (1983), tradução de Castelo Branco Chaves, e O Lúdico na Sociedade Portuguesa de Setecentos: o Testemunho de Merveilleux (1987), de Jorge Manuel Flores.
[3] José Saramago, em Memorial do Convento, retrata bem a sociedade no reinado de D. João V, e a influência da Igreja, através da Inquisição, no quotidiano.
[4] Merveilleux, Memoires instrutifs, I, pp. 101, 103, citado por R. Carvalho, A História Natural em Portugal do Século XVIII, p. 18
[5] Rómulo de Carvalho, 1987, pp. 68,69.


Bibliografia: Rómulo de Carvalho, A História Natural em Portugal no Século XVIII, Biblioteca Breve, Lisboa, 1987

BIOGRAFIA: Rómulo de Carvalho - Vida e Obra I

Foi a 24 de Novembro de 1906, na Rua do Arco do Limoeiro (hoje Rua Augusto Rosa), em Lisboa, que nasceu Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, filho de José Avelino da Gama de Carvalho e de Rosa das Dores Oliveira Gama de Carvalho.
Rómulo de Carvalho foi um homem que se entregou às várias áreas do saber. Foi professor de Química e Física, poeta, investigador, historiador, escritor, fotógrafo, pintor e ilustrador.
Sua mãe, foi a responsável pela paixão literária, tendo-lhe dado a conhecer, ainda novo, os ilustres autores portugueses, tais como Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde. No liceu adquiriu uma nova paixão, agora pelas ciências, devido ao seu lado experimental. Ingressa na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) para seguir o curso de Ciências Físico-químicas. Já licenciado, em 1932, formou-se em Ciências Pedagógicas, na Faculdade de Letras da mesma cidade. Enquanto professor, leccionou no Liceu Camões, Liceu D. João III e no Liceu Pedro Nunes (onde estagiara).
Colaborou como co-director na “Gazeta de Física”, e dedicou-se à divulgação científica, actividade que lhe dava imenso prazer, sendo o seu livro mais conhecido “Física para o povo”.
Nunca perdera a paixão pela literatura, escrevendo frequentemente poesia. Contudo, só aos 50 anos de idade, em 1956, após participação num concurso literário, é que publicou os seus poemas, embora sob um pseudónimo, António Gedeão. Anos depois, aventurou-se noutros géneros: teatro, ensaio e ficção.
Em 1974, após o 25 de Abril e 40 anos no ensino, reformou-se. O resto da sua vida foi dedicado à divulgação científica e à investigação em História das Ciências. Em 1983 tornou-se sócio correspondente da Academia de Ciências e, sete anos depois, assume a direcção do Museu Maynense da mesma Academia.
Aos 90 anos de idade foi homenageado a nível nacional. Faleceu a 19 de Fevereiro de 1997.


Fonte - Site oficial dedicado a Rómulo de Carvalho:
http://www.romulodecarvalho.net/biografia.html

01/02/2010

BIOGRAFIA: Brevíssima nota biográfica - Correia da Serra

O naturalista José Correia da Serra (1750-1823) nasceu em Serpa, mas, parte da adolescência e juventude foi vivida em Itália, local em que privou com personalidades de destaque a nível cultural, tais como Luís António Verney (1713-1792)[1] e D. João de Bragança, 2º duque de Lafões. Este tornou-se rapidamente grande amigo de Correia da Serra, apesar da considerável diferença de idades. O duque havia estudado em Coimbra na mesma época em que o pai do naturalista se formara em Medicina.
O naturalista é também vulgarmente conhecido por "Abade Correia da Serra", isto porque, ainda em Itália, estudou Direito Canónico e Civil e tomou ordens de presbítero, apesar de não ter dado continuidade à carreira eclesiástica, como explica R. Carvalho. [2]
Correia da Serra regressou a Portugal em 1779, e, juntamente com o seu amigo duque de Lafões, ponderaram criar uma Academia de Ciências "a fim de impulsionarem o progresso científico e técnico do nosso país" [3]. Contudo, em 1795 exilou-se em Londres, junto do amigo Joseph Banks, da Royal Society. Foi sócio de grandes instituições científicas para as quais escrevia, tais como a Royal Society, a Linnean Society, e colaborou na publicação dos Annales du Museum de Histoire Naturelle, de Paris.


[1] Para saber mais sobre este grande Iluminista, ver Rómulo de Carvalho, 1987, pp.27-29
[2] Idem, pp.101-102
[3] Idem, p.102

Bibliografia: Rómulo de Carvalho, A História Natural em Portugal no século XVIII, Biblioteca Breve, Lisboa, 1987, pp. 27-29; 101-103.

PARA SEMPRE: Correia da Serra

"O primeiro passo de uma nação para aproveitar as suas vantagens, é conhecer perfeitamente as terras que habita, o que em si encerram, o que de si produzem, o de que são capazes. A História Natural é a única ciência que tais luzes pode dar."

José Correia da Serra, in Discurso do início de Memórias Económicas da Academia das Ciências; tal como citado por Rómulo de Carvalho in A História Natural em Portugal no Século XVIII, Biblioteca Breve, Lisboa, 1987, p.74 



Nota: José Correia da Serra foi um naturalista do século XVIII e fundador da Academia de Ciências de Lisboa (Dezembro de 1779), juntamente com D. João Carlos de Bragança, 2º duque de Lafões. Juntos, criaram o Gabinete de História Natural da Academia de Ciências.

25/01/2010

A VER: Retrato Físico e Moral do Caracol


O caracol-dos-jardins, cujo modelo em corte se vê na imagem, é um gastrópode, ou seja, pertence a uma classe de moluscos com algumas características essenciais: corpo mole, com um pé musculoso e forte, cabeça com tentáculos na extremidade dos quais se situam os olhos, e saco visceral protegido ou não (caso de algumas lesmas) por uma concha. A concha do caracol, calcária e enrolada em espiral, alberga e protege a massa visceral. Na cabeça, unida ao seu pé musculoso, há dois pares de tentáculos e os olhos estão na extremidade do par superior, que é também o maior. O caracol terrestre respira por pulmões, diferentemente do aquático que respira por brânquias. A maior parte das espécies de caracol é hermafrodita. Em caso de ameaça ou noutras circunstâncias, o caracol pode retrair-se por completo no interior da concha que fica sendo o seu escudo em relação ao ambiente exterior. A sua abertura aparece por vezes selada por uma fina película que protege o caracol no Inverno e no tempo seco, mas também é comum aparecerem "colados" a muros, a árvores e a plantas. São os tentáculos que nas suas viagens lhe permitem encontrar alimento (vegetal), devido à sua função eminentemente olfactiva. O facto de carregar a concha nas suas serenas deslocações fez com que popularmente se dissesse que o caracol "traz a casa às costas", uma imagem que, aliada ao seu vagar, lhe mereceu uma certa simpatia geral. O caracol é comum em Portugal e há de várias espécies, facilmente reconhecíveis pelas características da concha. Habita zonas húmidas e desloca-se mais frequentemente de noite, de madrugada, ou depois da chuva, "reminiscências" da vida marítima (ao que se pensa) dos primeiros gastrópodes. Tem também servido de alimento às populações, cozinhado segundo receitas próprias, e até é recentemente aproveitado para tratamento dermatológico, pelo que apresenta valor económico. Estes factos, aliados à renovação dos modelos de exploração agrícola e de gestão florestal, têm levado à quase extinção de algumas espécies. Porém, é possível observá-los em quantidade nos jardins pouco tratados, em baldios ou subindo velhos muros ou paredes de casas.



Fontes:

  • Lexicoteca - Moderna Enciclopédia Universal, Círculo de Leitores, 1985 (volumes: IV, pp.220-221, s.v. "caracol"; IX, p.90, s.v. "gastrópodes")
  • Portugal Natural, Lisboa, Edideco-Editores, Lda., 1995, pp.122-124 (traduzido e adaptado do original belga La Belle Nature de Chez Nous (1991) por João Mendes)
  • David Burnie, Dicionário Escolar da Natureza, Editora Civilização, 1994, p.98 (esta obra apenas forneceu a imagem com que se ilustra o artigo publicado)

17/01/2010

A VER: Estudos da Natureza, por Dürer

Na imagem, duas pinturas do artista alemão Albrecht Dürer (1471-1528). A "Asa de uma Rola" data de 1512 e a "Lebre" data de 1502.



























Referência:

Norbert Wolf, Dürer, Taschen, 2006, p.40.

A VER: Representações do Naturalismo em Portugal


Na imagem[1] vê-se o 3º Marquês de Angeja, D. Pedro de Noronha, que se faz representar na actividade de naturalista, que cultivou. Podem observar-se os sinais desse empenho, quer nas conchas que estão na mesa, quer nas borboletas expostas ao fundo do gabinete, sem esquecer os livros, naturalmente essenciais para apoio científico nos autores mais avançados do tempo. D. Pedro nasceu em 1716 e faleceu em 1788. Dissimulado opositor do Marquês de Pombal[2], veio a ocupar o seu lugar no reinado de D. Maria I, que sucedia em 1777 a seu pai, protector de Sebastião José. “Numa época em que a alta nobreza habitualmente não integrava o corpo dos ministros do Estado, surpreendeu a nomeação de dois titulares. O primeiro na hierarquia, aparentemente sem ambições políticas conhecidas, presidia ao Real Erário, com a função de ministro assistente ao despacho. Era D. Pedro José de Noronha e Camões de Albuquerque Moniz e Sousa, 3º Marquês de Angeja e 4º Conde de Vila Verde, corifeu da alta nobreza, um velho dado às ciências naturais, conhecido pela sua probidade e arte de cortesão, tão consumada que jamais Pombal lograra atacar esse amigo predilecto do rei.”[3] Teve vários cargos no Estado, sendo significativo o de inspector das obras de reconstrução de Lisboa depois de 1755. Houve influência sua na criação do Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda[4], aparecido em 1764, o qual, infelizmente, não pôde dar origem uma geração de conhecidos cientistas portugueses. O investimento essencialmente económico das expedições coloniais – então chamadas “viagens filosóficas” –, a sobrecarga de tarefas burocráticas atribuídas a naturalistas e a consequente perda de espécimes que se degradavam antes da classificação taxonómica nunca tornaram o espaço numa casa de estudo científico eficiente, natural e desejavelmente motivador da modernização dos currículos escolares e universitários. Nem a reforma começada em 1791 resolveu o problema. “Para que semelhante programa de trabalho pudesse ter capitalizado os recursos disponíveis na Ajuda, teria sido exigido ao poder político um maior esforço de investimento quer no apetrechamento das instalações e equipamentos museológicos, quer na requalificação técnica do seu quadro de funcionários (através da contratação de mais naturalistas e da formalização de ensino público no interior dos estabelecimentos), o que quer dizer que a restruturação “economica” teria de ter envolvido, por igual, uma componente “scientifica” especialmente vocacionada para o estudo das colecções.”[5] As destruições e pilhagens que ocorreram durante as Invasões Francesas acrescentaram obviamente muitas dificuldades a esta gestão já ineficiente.


Notas:
[1] A imagem vem de Luís de Oliveira Ramos, D. Maria I, Casais de Mem Martins, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2007.
[2] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.2, Lisboa – Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, s.d., p.593, s.v. “Angeja, Marqueses de”.
[3] Luís de Oliveira Ramos, D. Maria I, p.65.
[4] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol.4, Lisboa – Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, s.d., p.969, s.v. “Botânico”.
[5] João Carlos Brigola, “Museologia e História Natural em finais de Setecentos – o caso do Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda (1777-1808)”, in Anais – Série História, vol. VII/VIII, 2001, EDIUAL, Universidade Autónoma Editora, S.A., pp.227-228 (Actas do Colóquio “A Casa Literária do Arco do Cego”).

13/01/2010

ENSAIO: A Importância da História da Ciência

A História é a memória dos saberes humanos e, especificamente, das Ciências criadas pelo Homem. Dentro da literatura humana existe uma ampla biblioteca de exposição científica. O Homem, desde sempre curioso em saber mais sobre o seu ambiente, tem criado métodos de análise e conhecimento dos muitos fenómenos que atraem o seu interesse. Assim se foram desenvolvendo as Ciências que desde há séculos descrevem a Natureza e reescrevem as suas conclusões. O objecto da observação, os métodos e até a sensibilidade do cientista, distanciam-nas entre si e permitem, apesar da natural continuidade entre os seus saberes, uma razoável delimitação de fronteiras, ou seja, a especialização. Mas aproximam-nas a investigação contínua, a crítica dos trabalhos e a pretensão de verdade das conclusões. A importância de uma disciplina como a História parece ser evidente. A História é a narração do passado humano apoiada na leitura crítica de variados documentos. É um repositório de factos pretéritos acerca de todas as sociedades humanas conhecidas, a todo o momento consultável e a todo o momento aumentado. É, pois, pelo trabalho dos seus escritores e “cultivadores” que se conserva, se conhece, se relembra e se critica a Memória. Já aqui se pressente a sua relação com outras ciências, como a Biologia ou a Medicina. A História é a organização da memória dos saberes científicos, para que se saiba sempre o que se acha adquirido e quanto espaço para investigação existe. Explicando melhor: todas as Ciências têm os seus métodos e fins, adquiridos ao longo de muitos séculos de investigação. Observações, tentativas, falhas, estudo, soluções têm feito parte da descoberta de verdades mais ou menos permanentes. Assim, a existência de qualquer ciência pressupõe factos anteriores. Sendo os factos pensados e executados pelo Ser Humano, a existência das Ciências também pressupõe memória. Se a memória é a “conservação de experiência anterior que se manifesta por hábitos ou por lembranças”[1], é a História, com as suas ciências auxiliares, que tem tratado de guardar e sistematizar para consulta e crítica os factos que conduziram ao que são hoje as nossas Ciências. É, por isso, um suporte privilegiado de memória, pois que, na sua acepção geral, a abrange toda. A História nunca poderá ser uma ciência pouco útil ou pouco importante, já que em geral está relacionada com as ideias de identidade, de liberdade e de autonomia. Relativamente à Ciência em particular, afirma o Prof. A. Tavares de Sousa: “A ciência não pode prescindir, para se pensar a si mesma, do conhecimento do seu passado próximo ou remoto, que é o seu modo histórico de formação, a sua própria ontogenia.”[2] Noutro passo, diz o mesmo autor: “O desprezo pela História da Ciência não constitui título de engrandecimento nem sinal de capacidade progressiva. Muito ao contrário. A Ciência de hoje será a História de amanhã.”[3]


Notas:
[1] “Dicionário da Língua Portuguesa”, 5ªedição, Porto, Porto Editora, s.d., p.933, s.v. “Memória”.
[2] A. Tavares de Sousa, “Curso de História da Medicina – Das Origens ao Século XVI”, 2ªedição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p.3.
[3] Idem, ibidem, p.9.

15/12/2009

ENSAIO: A dor do Cisma

QUANDO O MUNDO FICOU ÓRFÃO
A Ocidente, o início da caminhada foi simples, e tranquilamente gratificante, porque ninguém estava sozinho: Deus estava com todos os homens, em todos os fenómenos naturais, em todas as manifestações de sabedoria e em todos os pequenos gestos do quotidiano. A demanda científica encaixava neste molde como qualquer outra expressão da Natureza Humana: era o desvendar do Livro da Natureza, que Deus nos deixara juntamente com o Livro da Revelação. Como tal, tinha que seguir as Escrituras e confirmá-las. A Ciência e a Religião eram duas faces da mesma moeda e foram-no enquanto a acumulação de dados científicos o permitiu –– porque estes cientistas, à semelhança da sociedade que os rodeava, eram crentes; e porque ninguém gosta da ideia de ficar órfão, completamente sozinho num planeta aleatório suspenso no vácuo, no seio de uma Natureza que afinal não espelha as intenções de Deus e como tal não tem, de todo em todo, qualquer espécie de moral.
No caso concreto da crença cristã da nossa herança ocidental, foi o tempo de duração da vida na Terra que fez começar a ruir um edifício muito belo e muito complexo, construído laboriosamente durante séculos e séculos.
No livro do Apocalipse, São João deixa clara a tendência celestial para a contagem do tempo em períodos de mil anos –– os mil anos de império de Cristo com os santos, os mil anos em que Satanás anda à solta com a Besta e as nações de Gog e Magog, todos sugerem tendências milenares na actividade divina. Depois, aparece uma passagem curta no terceiro capítulo da segunda epístola de Pedro, uma carta dirigida aos crentes exactamente sobre o tema do milénio e do regresso do reino de Deus. Pedro afirma, com vários dos seus pares, que a próxima destruição do mundo (aquilo a que viria a chamar-se a Conflagração Final) será pelo fogo. Não nos dá datas precisas para o evento, mas afirma, de forma oracular, que Deus faz num dia o que o homem faz em mil anos. Este é, para os seus leitores e ouvintes, um oráculo confortável devido à sua familiaridade: o mesmo tema aparece no Antigo Testamento, nas palavras do Salmo 90: “Pois mil anos ao Vosso olhar são como ontem depois de ter passado e como uma vigília nocturna”. Da combinação destas três contribuições, nasceu o raciocínio que havia de guiar o pensamento europeu até ao início do século XIX: se Deus faz num dia o que o homem faz em mil anos, e se em seis dias Deus criou a Terra, então o tempo de duração da vida na Terra deverá ser de seis mil anos, mais mil anos representativos do sétimo dia, em que Deus descansou –– e que, por seu turno, representam os mil anos de glória do reinado de Cristo com os santos. Até a Geologia começar a tornar estes números insustentáveis, todos os raciocínios que se fizeram sobre a Terra fizeram-se a pensar em sete mil anos de existência. Sete mil anos é um período plausível. A inteligência humana consegue medi-lo. Foi extrapolado a partir das Escrituras. Durante muitos séculos de progresso científico, os cientistas eram crentes, acumulavam dados novos que assombravam os seus contemporâneos, e continuavam a confiar nas Escrituras como primeira fonte da sua informação. A introdução generalizada da microscopia, na segunda metade do século XVII, foi recebida como uma revelação do poder divino ainda mais assombrosa do que o que seria possível pensar antes –– abaixo do limite de resolução dos nossos olhos, Deus criara um mundo tão perfeitamente organizado como o nosso; e, provavelmente, abaixo desse mundo existiam ainda outros. No início do século XVIII, quando Isaac Newton descobriu as leis da gravidade, pensou ter descoberto a face matemática de Deus –– e foi exactamente este lado transcendente das suas equações que criou tanto entusiasmo na sociedade que o rodeava.
Mas, por esta altura, já todo o conhecimento europeu recolhido e catalogado se engrossava como uma vaga cada vez mais espessa prestes a desabar sobre a credibilidade das Escrituras como fonte de toda a informação original sobre os fenómenos universais. Durante o Iluminismo, a noção da complexidade do Universo levara Newton a sugerir que os seis dias da Criação teriam sido inimaginavelmente longos, para dar a Deus o tempo necessário para executar toda a Sua obra –– e só depois disso é que, graças a um esforço especial dos anjos, a Terra teria começado a rodar cada vez mais depressa sobre o seu eixo até atingir as 24 horas de rotação diária agora conhecidas, tendo nesse processo de aceleração ficado inclinada e achatada nos pólos. Por muito respeito que Newton merecesse, esta ideia dos anjos a fazerem a Terra girar cada vez mais depressa não angariara quaisquer seguidores no próprio século XVIII. No século XIX, era já consensual que por “dias da Criação” devíamos entender “épocas da criação”, sendo “dia” uma metáfora bíblica para a unidade de tempo (a “época”) que Deus levara a construir uma determinada parte do mundo. Sendo assim, o tempo exacto da Criação deixava de ser problemático. E, já que, de qualquer forma, Deus ficara insatisfeito com o rumo dos acontecimentos e enviara o Dilúvio para apagar da face Terra todas as formas de vida que não estivessem na Arca, também era praticamente consensual que a cronologia dos acontecimentos terrenos só devia começar a partir do momento em que as águas baixavam e a Arca pousava no Monte Ararat.
O grande drama deste esquema aparentemente sensato é que, contrariamente ao que acontecera até ao disparo das Descobertas, no fim do século XVIII os mapas do mundo estavam completos e os europeus conheciam praticamente todas as espécies animais que o povoavam, incluindo colibris e ornitorrincos. Cientificamente, o cenário começava a tornar-se impraticável: mesmo construído com a ajuda de Deus, que espécie de engenho de madeira erguido por mãos humanas seria suficientemente leve para flutuar e suficientemente vasto para manter vivas e férteis lá dentro, durante quarenta dias, milhares de espécies animais oriundas de climas tão diversificados e com rotinas tão antagónicas? Como manter o leão tranquilo ao lado da gazela? Como sustentar na mesma nave o urso polar e o canguru? E todas as plantas do mundo? Como explicar a sobrevivência da savana, ou da floresta tropical húmida, ou da modesta tundra do Ártico?
Ofereceram-se soluções de conciliação do conhecimento científico com o texto bíblico, mas todas tão fantasiosas que mesmo os mais crentes e piedosos dos cientistas se afastaram prudentemente dos seus proponentes. As montanhas mais altas teriam formado ilhas, para onde a inspiração divina conduzira muitos destes animais exóticos, a quem o castigo não era destinado. Deus só mandara o Dilúvio para as terras habitadas pelo homem, e a maioria destas novas espécies vivia em paraísos intocados pela malícia humana. Quando Deus diz a Moisés “leva os animais contigo”, está a dizer-lhe “leva os animais que estão ao pé de ti” –– os outros animais, muito provavelmente, teriam sido fruto de uma nova Criação operada na remodelação do mundo subsequente ao Dilúvio. De todos estes esforços de exegese delineavam-se, já, dois entraves de maior monta na conciliação entre as Escrituras e os dados científicos: o Dilúvio, que sempre se pensara ter moldado a face inteira do planeta, parecia agora estar a regredir para uma região do globo cada vez mais limitada; e a ideia da criação pós-diluviana de toda a fauna exótica choca de frente com todo o conhecimento já acumulado sobre ossadas fósseis de animais aparentemente muito semelhantes, e que dão todos os sinais, pela posição dos ossos e pelos estratos rochosos onde se encontram, de terem vivido muito antes do Dilúvio.
Apesar de tudo, a subalternização do Dilúvio era mais fácil de digerir. A meio do século XIX, o famoso geólogo britânico Charles Lyell já podia dizer num debate público “olhe, Reverendo, encharque a bacia do Jordão em tantas grandes cheias quantas lhe aprouver”, que a maior parte da audiência ria e batia palmas, como aliás fazia com a maior parte das famosas grandes tiradas deste homem que começara a sua vida activa como advogado de barra e sabia das artes de electrizar audiências. A passagem do tempo bíblico de sete mil anos de vida na Terra para o Tempo Profundo da Geologia de hoje, essa, requeria uma mudança de paradigma tão radical e perturbante que foi debatida amargamente por colegas de profissão e só se resolveu com um primeiro separar das águas.
Em 1795, o geólogo James Hutton publica Theory of the Earth, um livro de mais de mil páginas que vai ficar na história como o disparador do Grande Cisma. Hutton olha para a Terra, analisa as suas rochas e as formações que aparecem, estuda os fundos oceânicos, e não vê sinais de criações nem de catástrofes. Apenas vê ciclos. Vê novas rochas a formarem-se no fundo oceânico por obra do calor actuando sob pressão, vê que essas rochas vão subindo cada vez mais acima do nível do mar, e vê que, entretanto, a chuva, a neve, o vento, e todas as outras formas de erosão vão arrastando os cumes montanhosos para a bacia dos rios, acabando por devolvê-los ao mar. A esta teoria de funcionamento da superfície da Terra Hutton dá o nome de Vulcanismo: a modelação é feita por efeitos cumulativos de forças minúsculas e alterações infinitesimais, que, no fim, produzem alterações idênticas às de um cataclismo súbito. Para que isto possa acontecer, é necessária uma enorme quantidade de tempo –– basta recordar que, em toda a história registada, nunca se verificou nenhuma destas alterações. Esta sucessão infinita de ciclos torna desnecessária qualquer intervenção divina. Escusado será dizer, também não revela quaisquer sinais de ter ocorrido uma catástrofe com as proporções do Dilúvio no ano 2200 A.C., data que lhe era frequentemente atribuída. Perante o peso incontornável das suas próprias descobertas, Hutton conclui com a frase que vai mudar tudo:
“Não encontramos qualquer vestígio de um princípio, nem qualquer prenúncio de um fim”.
Repare-se que o autor não nega a narrativa bíblica: apenas afirma não ter encontrado registos geológicos do que lá vem relatado, nem no que toca à Criação nem no que respeita à preparação para a Conflagração Final. Hutton teve bastantes seguidores, mas também teve muitos detractores. Entre estes, um dos ataques mais frequentes que lhe fazem é de estar a incitar a sociedade ao ateísmo, por escrever em desacordo com as Escrituras. Hutton é crente, e sofre sinceramente com este tipo de acusações, que alastram depois da sua morte em 1797.
Em defesa do Mestre, o seu antigo discípulo John Playfair publica um síntese do Theory of the Earth que seja mais facilmente legível pelos colegas e pelos cidadãos interessados (o estilo arrevesado e repetitivo de Hutton poderia ter causado dificuldades de leitura e assim facilitar mal-entendidos). Na introdução, chama a atenção para uma distribuição de papeis muito simples que iliba Hutton de qualquer pecado de ateísmo: os cientistas só têm que entender as leis da Natureza e como funcionam, não lhes compete explicar o porquê desse funcionamento, sendo essa a missão do teólogo. É a primeira vez que alguém vindo da comunidade científica defende em público que a ciência e a religião devem ocupar campos separados e tratar de assuntos separados. Todo o espírito do tempo está a encaminhar-se nessa direcção.
Sem Dilúvio, sem tempo mensurável de existência, a Terra estava a escapar cada vez mais à sua antiga aliança harmoniosa com as Escrituras. Para manter a ordem no planeta ainda restava, no entanto, o homem feito à imagem de Deus.
É costume associarmos esta última machadada na ciência como forma de crença ao trabalho de Charles Darwin; mas, na realidade, a remoção do homem do seu pedestal divino foi feita antes por um autodidacta com muitas leituras e muitas ideias, especializado em produzir manuais e enciclopédias. Robert Chambers esteve alguns anos escondido numa casinha de campo na Escócia até produzir Os Vestígios da Criação, um livro que publicou em 1841 sob anonimato absoluto. À evolução chamava ele desenvolvimento. Algumas das suas explicações “científicas” para a diversificação das espécies eram fantasiosas e claramente malfundadas. Mas sim, a versão da ascendência humana se encontrar nalgum primata já desaparecido aparecia lá com todas as letras. O escândalo causado por este livro foi avassalador, e Darwin seguiu-o com atenção, preparando cuidadosamente o caminho para a perturbação dos seus contemporâneos por uma nova obra que, desta vez, seria bem fundamentada e teria sólidas básicas científicas –– a obra de mais um geólogo, como todos os outros que já tinham iniciado o processo de cindir a ciência da religião. A passagem que se segue, datada de 1859, da autoria do geólogo Adam Sedgwick, um dos professores que Darwin mais respeitou e temeu, em resposta à oferta pelo autor de uma primeira edição de A Origem das Espécies cuidadosamente dedicada e autografada, expressa bem o desespero de quem se sente na soleira da porta da orfandade:
“A coroa de glória da ciência orgânica é conseguir, através da causa final, ligar o material ao moral […] Você ignorou esta ligação; e, se percebi bem a sua intenção, fez o seu melhor em um ou dois casos para quebrá-la. Se fosse possível (o que, graças a Deus, não é possível) quebrá-la, a humanidade, na minha opinião, sofreria um dano que poderia brutalizá-la, e afundar a raça humana num grau de degradação mais baixo do que qualquer um em que já tenha caído desde o início da sua história registada”.
E assim foi. A Natureza moral que nos revelava o pensamento divino mergulhou nas trevas por baixo da grande placa tectónica da selecção natural como mecanismo organizador da diversidade da vida, e para todos os efeitos o mais amoral dos mecanismos concebíveis: é totalmente aleatória, funciona às cegas, não apresenta qualquer pretensão de castigar os maus e gratificar os bons, neste mundo ou em qualquer outro. O homem perdeu o seu lugar privilegiado à imagem e semelhança de Deus, e teve que encarar a sua própria existência como um mero acaso da Natureza. A orfandade desceu sobre o mundo, e a moralidade foi morrer longe. Ciência e religião dividiram os seus feudos.
E, paradoxalmente, no mundo perdido onde acabámos por morar, vêm hoje perguntar-nos, enquanto biólogos, as tais perguntas que estão reservadas para o foro da teologia. Quando começa a vida? Quando podemos dizer que um embrião tem individualidade? Será que o nosso código genético é a nossa alma? Mas nós, crentes ou não, só podemos reiterar o que Playfair já constatou há dois séculos. Podemos entender as leis e explicar como funcionam. Está fora do nosso alcance explicar porquê.